A cobertura da guerra em Gaza

4 Janeiro, 2009

Aqui vai a capa dos principais jornais eletrônicos relacionados ao conflito em Gaza:

Haaretz jornal de Israel: A guerra como um plano e objetivo de governo. Como anda nossas ações em território alheio?

 

Aljazeera principal imprensa do mundo árabe: A guerra como um ataque a nossos civis. Eles estão nos matando, reajam!

 

The New York Times principal jornal dos EUA e do mundo:  A descrição numérica de um conflito longe de nós. Como anda a guerra lá em Gaza?


Relato de jornalista morador de Gaza sobre ataque terrestre

4 Janeiro, 2009

 

Relato do jornalista da BBC Hamada Abu Qammar que mora em Gaza, na noite do início do ataque terrestre:

“Na noite passada (sábado), onde eu moro, na parte central da Faixa de Gaza, nós ouvíamos bombas, artilharia e também tiros disparados de helicópteros.

Eu estava observando tudo do topo da casa do meu irmão. Era assustador. Eu também fui para a rua na nossa área. Ela estava virtualmente vazia.

Nós estamos preocupados com os ataques aéreos, especialmente porque os israelenses advertiram uma família que mora aqui perto que eles pretendem destruir a sua casa.

As pessoas aqui ficaram chocadas e entraram em pânico após os primeiros ataques aéreos, há uma semana.

Agora, alguns estão deixando suas casas, não apenas no norte, mas em outros lugares também, onde há algum prédio do Hamas ou mesquita por perto.

Eu vi algumas pessoas se mudando, eles em geral buscam abrigo com parentes e vizinhos.

Eu acabei de falar com um dos meus primos. Ele vive a cerca de 300 metros do campo de refugiados de Jebaliya. Ele disse que há muitos militantes prontos para disparar contra tropas israelenses, que não estão longe da estrada de Salahuddin, a principal via que liga o norte ao sul.

Ele disse que os militantes estão fazendo muita fumaça para esconder os seus movimentos.

Ele disse que há atiradores, forças especiais e tanques israelenses próximos ao populoso campo da Faixa de Gaza.

Se eles entrarem no campo, as pessoas estão preocupadas que a situação vai piorar ainda mais.

Ele tem dois filhos e há mais 15 pessoas na sua casa. Eles têm um quarto pequeno e estão todos amontoados ali, tentando se manter a salvo. Eles estão com muito medo.

Outro primo meu mora no campo. Um dos seus vizinhos ouviu na rádio local que meu primo morreu, mas eu não consegui confirmar a informação porque não consegui falar com ninguém.

Muitos dos telefones, especialmente no norte, não estão funcionando. É uma situação muito difícil, mas o que nós podemos fazer? Eu não posso nem ir ao escritório da BBC, as tropas israelenses dividiram a Faixa de Gaza.

Essas coisas estão tornando a vida muito difícil das famílias em Gaza, especialmente se elas estão tentando se comunicar entre si.

Nós vivemos com preocupação. Durante toda a noite passada, não havia jeito de dormir, com os bombardeios, e não havia jeito de entrar em contato com nossos parentes. Eu tenho duas irmãs que moram no campo de refugiados de Jebaliya e elas também estavam tentando deixar as suas casas.

Eu estou tentando fazer meus filhos pararem de chorar. Eu tento fazer com que eles brinquem, eu estou com eles agora. Eu só quero que eles ignorem o que está acontecendo ao redor deles. Eles dormiram um pouco durante a noite, mas o som dos bombardeios continua os acordando.

Eu disse ao meu filho que tudo está acontecendo longe daqui, mas ele mesmo disse ter visto dois helicópteros acima de nós. Ele tem seis anos de idade. Ele sabe a diferença entre helicópteros, aviões não-tripulados, F16s… tudo isso”


Palestino descreve gravidade da situação em Gaza

4 Janeiro, 2009

Leiam carta de Safwat al-Kahlout palestino, morador de Gaza, foi escrita neste sábado, pouco antes de Israel iniciar ofensiva terrestre contra Gaza:

“Há oito dias, eu e minha família dormimos com as janelas abertas, embora a temperatura do lado de fora oscile em torno de zero grau. Somos obrigados a fazer isso, pois em caso de bombardeio a onda gerada pelas explosões quebraria os vidros e poderíamos ser feridos pelos estilhaços.

Ontem [sexta-feira (2)], depois de uma semana dormindo no gelado, acordei com uma tosse fortíssima, e quando anoiteceu eu mal podia respirar. Ir à farmácia é impossível: estão quase todas fechadas, e as únicas duas que seguem abertas já não têm mais remédios.

Por outro lado, é sempre perigoso andar pela cidade, por causa das bombas que podem cair a qualquer momento. Por sorte, um amigo se ofereceu para ir comigo a um hospital.

Ao chegarmos lá, deparei-me com uma situação terrível: todas as camas, mesmo as desocupadas, estavam manchadas de sangue. Um médico me explicou, então, que eles não tinham tido tempo para limpá-las, porque assim que um paciente vai embora — vivo ou morto — seu lugar imediatamente é ocupado por outro.

E mesmo se houvesse tempo, conta, isso de nada adiantaria, já que na lavanderia do hospital não há nem água nem eletricidade.

Tentei esquecer do sangue, estendi minha jaqueta sobre a cama e deitei. O médico injetou na minha veia um remédio que me faria respirar melhor.

Pouco tempo depois, ele voltou com um pequeno frasco de antibiótico, contando-me que teve de roubá-lo, porque todos os remédios mais usados ficam trancados, reservados para o caso de os israelenses iniciarem o temido ataque por terra.

Em Gaza, milhares de pessoas se encontram na mesma situação que a minha, com bronquite, pneumonia ou coisas piores, mas não conseguem chegar ao hospital porque têm medo de sair de casa ou sentem vergonha por ocupar uma cama que deveria estar reservada aos que foram feridos pelas bombas.

O doutor me disse que o diretor do hospital, Hassan Salas, organizou uma reunião de urgência para avaliar a situação caso Israel inicie uma invasão por terra. E a conclusão é que esta seria situação desesperadora: não estamos preparados para os milhares de pacientes que este tipo de ataque geraria.

A situação é igualmente ruim no hospital pediátrico de Gaza, o Naser, onde a explosão de uma bomba destruiu todos os vidros das janelas da maternidade e da sala em que estão as incubadoras, com 30 bebês prematuros.

As crianças foram tiradas de lá junto com suas mães e levadas ao setor de emergência, mas as condições no local também são precárias.

Na seção de oncologia, todos os tratamentos foram suspensos por falta de remédios. Com isso, os doentes de câncer podem apenas ser submetidos a exames clínicos.”

Imaginem a situação de GAza agora com a invasão terrestre. Para invadir Israel cortou a energia e os suprimentos humanitários para a região. Os moradores não poderão sair, nem para ir ao hospital devido aos tanques e conflitos terrestre. Talvez moram em casa com frio, doença agravadas e de fome. Quanto mais durar a guerra pior a situação da população civil.


A sapatada merecida

4 Janeiro, 2009

Por Marcelo Ambrosio do JB

Na cultura islâmica, atirar o sapato em uma pessoa é o grau mais alto de ofensa que se pode proferir ao outro. Quando o jornalista iraquiano atirou os dois pés do sapato em George Bush ontem, em Bagdá, mostrou que para muitos cidadãos daquele país o presidente americano merece tratamento pior que o de um cão sarnento. Olhando para o retrospecto de Bush em sua aventura libertária, há muito o que reclamar, embora nos tempos recentes a situação no país tenha avançado no sentido de uma pacificação relativa (é bem verdade que obtida graças à uma pressão dos iranianos em cima de Moqtada Al Sadr, líder da milícia xiita que domina uma área tão populosa quanto miserável da capital iraquiana). 

A sapatada, por sinal, deve constar obrigatoriamente na biografia do presidente. Ilustra a decadência política de um governante que, durante um bom período, comportou-se como o legislador do mundo, o condutor da chamada Pax Americana. Quem se lembra da declaração arrogante de invasão do Iraque transmitida pela teve em 2003 se deliciou com a cena histriônica de um homem com poder de icinerar o mundo tendo de usar da agilidade para desviar-se de sapatos – aliás atirados com impressionante pontaria pelo repórter. Também vale comparar o mesmo Bush que anunciou o projeto do Grande Oriente Médio, ou a visão particular de uma região redesenhada à luz dos princípios dos neocons cristãos que o cercavam, com o sorriso sem graça de quem tenta reduzir um incidente como esse a algo insignificante.

Não foi e não é. Além do princípio da ofensa em si, do qual Bush parece desconhecer, os sapatos atirados respondem à manutenção das carências impostas à população, à segregação representada pela fortificada Zona Verde e seus exércitos de mercenários, à falta de transparência em relação à aplicação das verbas de reconstrução – maquiadas pelo Pentágono, conforme relatório divulgado pelo NYT. Cada sapato atirado sobre o presidente carregou o peso de todas as mortes inúteis e mal explicadas em meio à população civil, da cínica apuração do massacre provocado por mercenários da Blackwater em Bagdá em um tribunal americano e de outras manifestações imperiais. Lembro bem de uma família, morta nos primeiros meses da ocupação, perto de Mosul, quando se aproximavam de uma barreira militar: o soldado ordenou que parassem fazendo um gesto com a mão espalmada. Por ignorância e arrogância não sabia que em árabe o gesto tem o significado oposto. Pai, mãe, filhos e filhas foram fuzilados no carro e o soldado protegido, absolvido e condecorado. A sapatada em Bush honrou a memória dos inocentes.

Ainda em relação ao jornalista iraquiano, o gesto gerou tensão em Bagdá. Embora signifique absoluto desprezo pela pessoa, não significa um ataque à sua integridade física. O homem está preso, sob acusação de ter atacado o cidadão mais poderoso do planeta. Com base em que leis será julgado? Como uma conspiração contra o presidente dos EUA ou como uma briga entre vizinhos que se odeiam? O que valerá mais, o código dos procônsules da ocupação – é uma ironia dizer que a soberania iraquiana hoje é completa. Na verdade é parcial e depende dos interesses americanos – ou o código de conduta comportamental dos´povos árabes? Aliás, sobre esse assunto vale acompanhar uma série em exibição no canal de tv a cabo HBO: Generation Kill é pródiga em cenas de violência, mas tem a vantagem de mostrar soldados descrentes da própria utilidade. Em um dos capítulos recentes, ordenam um bombardeio a um complexo de casas no qual podiam ver crianças brincando. A suposição é a de que os homens, que os teriam atacado, se esconderam atrás delas para evitar uma retaliação. Ninguém se preocupou em checar a informação. A bomba liquidou o assunto. Sem remorsos, mas sem convicção alguma sobre o que é certo e o que é errado ali. 

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O presidente americano do norte teve no fim de seu governo uma retaliação moralmente forte e merecida por suas ações em anos recentes. Não foi uma reação militar, que ultimamente ninguém faz pelos mais fracos, mas sim uma reação social de um cidadão cheio de rancor aprisionado por tempos.