Entrevista esclarecedora e assustadora do embaixador da Autoridade Palestina no Brasil, Ibrahim Al Zeben para o G1. Do conflito a guerra, do caos ao desespero, das mortes ao Genocídio. Gaza é um cercado (gueto) em chamas, onde vive 1,5 de pessoas! É assustador as previsões para o futuro. O mundo precisa enfrentar sua responsabilidade.
G1 – Como está a situação humanitária na Faixa de Gaza, neste momento?
Ibrahim Al Zeben - Está muito complicada. Não tem lugar seguro. As pessoas podem ficar em casa ou sair na rua, não tem lugar seguro. Estão aguardando. Aguardando pela sorte e pela arbitrariedade do exército israelense.
Algumas pessoas tentaram fugir e foram mortas no caminho. Muitas procuraram locais que pensavam ser seguros, como a escola da ONU, que foi bombardeada. Dois dias depois eles tiveram que pedir desculpas. Disseram que foi um engano. Por engano, matam 40, ferem 120.
A população se encontra em uma situação muito difícil neste momento. Não há nem os artigos mais básicos. Falta comida, falta água. Tem muita gente morrendo não só pela guerra, mas por falta de comida. Tem muita gente morrendo por ferimentos que são perfeitamente tratáveis, mas elas morrem por que não conseguem atendimento médico. Pode colocar aí, estamos morrendo da guerra e estamos morrendo de fome.
Depois de 14 dias de bombardeio, as ruas já não são mais ruas. São destroços. Não existem mais lugares seguros. As pessoas correm de um lugar para o outro, mas estão entregues à própria sorte. Elas podem morrer se ficarem onde estão e podem morrer se procurarem outro lugar.
G1 – O número de mortos pode ser maior do que o divulgado?
Al Zeben - Com certeza é maior. Estamos contando os mortos conforme encontramos os corpos e há muitos corpos em locais que não podemos alcançar. Ontem (quinta-feira) os israelenses pararam os bombardeios por duas horas e quinze minutos. O apoio humanitário entrou, mas na hora que chegou nos locais onde podiam prestar atendimento, já era hora de voltar. Quando voltaram para o mesmo lugar hoje (sexta-feira), eles encontraram mais de 50 cadáveres de pessoas que poderiam ter sido salvas com atendimento médico. Agora as Nações Unidas suspenderam o atendimento à região. Nossa última pequena janela de esperança se fechou.
Israel não está respeitando a população civil. Está usando bombas incendiárias, que são proibidas internacionalmente. Elas caem no chão e o fogo fica por alguns minutos. Quem é pego no trajeto, morre incendiado. Não que exista bombas boas e bombas más, todos os tipos são ruins. Mas essas são especialmente cruéis.
Ninguém está sendo poupado. A população civil não está sendo poupada. A ONU não se salva. Os jornalistas não se salvam. Os hospitais são destruídos, as escolas são destruídas. As mesquitas, que são santuários da fé, são destruídas. Só ontem 11 mesquitas foram incendiadas por soldados israelenses. Israel está deixando a terra arrasada.
G1 – Em um ambiente como esse, é possível separar a população civil dos militantes do Hamas?
Al Zeben - Na verdade, nós não sabemos exatamente quem é que está enfrentando o exército de Israel neste momento. Todo o povo palestino está se defendendo. Mesmo quem não é militante do Hamas, mesmo quem não tem nada a ver com a guerra. É uma situação desesperadora. A pessoa vê a sua família em perigo, vê a sua família morta, e vai pegar em armas para enfrentar o inimigo. E quem pode julgar? Essas pessoas têm o direito de se defender. As casas delas estão sendo atacadas.
G1 – Uma trégua, neste momento, é possível?
Al Zeben - É um pouco difícil ter uma trégua por enquanto. Talvez um cessar-fogo. Tomara que um cessar-fogo. Precisamos de uma trégua definitiva, precisamos parar a guerra de uma vez. Por que quem está lutando sabe se proteger, sabe se esconder, sabe atacar e sabe se defender. Quem está morrendo são as pessoas que não sabem se defender, é a população civil e principalmente as crianças
G1 – O que falta para essa trégua definitiva?
Al Zeben - Precisamos de uma intervenção forte. Mas está bem difícil. Os Estados Unidos se abstiveram no Conselho de Segurança. Isso é o quê? É uma luz verde. É uma luz verde para Israel continuar o que está fazendo. É claro que uma abstenção é melhor que um veto. Mas isso não pode continuar. Todos sabemos que quem protege Israel são os Estados Unidos. Os Estados Unidos são a única potência mundial capaz de parar com essa guerra definitivamente.
Temos mortos demais. Há mortos no lado de Israel, há uma imensidade de mortos no lado de Gaza. Quem vai parar esse ciclo de violência?
G1 – O senhor acredita que isso pode mudar com a posse de Barack Obama?
Al Zeben - Espero que sim. Mas acho difícil. Espero que ele possa mudar alguma coisa, mas não vamos exagerar no otimismo. Os Estados Unidos apóiam Israel há muitos anos. Não é um novo presidente que vai romper esse establishment. Até que ponto o senhor Obama quer mudar as regras do jogo? Até que ponto ele pode mudar as regras do jogo?
Além disso, Obama só toma posse no dia 20. Temos muito tempo até lá. Será que teremos ainda alguma coisa em Gaza até lá, com mais dez dias de bombardeio e ataques?
G1 – O Brasil pode ter um papel nas negociações de paz?
Al Zeben - O Brasil está trabalhando intensamente pelas negociações de paz. Sabemos que o ministro Amorim está a caminho da região para tentar ajudar. O mundo inteiro está interessado em novas iniciativas e o Brasil é um dos países que está abrindo o caminho desse mundo novo. O Brasil está sendo coerente com suas políticas internacionais. O presidente Lula deu orientações bem claras ao Itamaraty. Só temos a agradecer os esforços dos brasileiros pela paz no Oriente Médio.
Ontem (quinta-feira), o Conselhos dos Embaixadores Árabes iria se encontrar com o senhor Amorim, mas ele já estava em viagem. Fizemos uma carta agradecendo ao Brasil pelos esforços. Nos encontramos com o senhor secretário-geral [o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães] e entregamos a carta agradecendo a ajuda humanitária que o Brasil enviou a Gaza.
O Brasil está fazendo sua parte. Os jornalistas estão fazendo sua parte. A palavra é uma arma muito importante, precisamos divulgar informações sobre o que está acontecendo.
Nosso povo está morrendo. O mundo precisa enfrentar a sua responsabilidade. O Direito Internacional está em jogo aqui. Não falo aqui de países e nações. Falo de pessoas. Ninguém está isento de responsabilidade. Todo mundo tem a obrigação de se perguntar: eu pertenço a essa mundo ou não pertenço? Eu sou um ser humano?
Será que veremos algo parecido, embora diferente:
A primeira, conhecida: Gueto de Varsóvia, 1941

Segunda: Gaza, Palestina Ocupada, 2009:

A primeira imagem foi amplamente memorializada nos últimos sessenta e poucos anos.
Que a segunda jamais seja esquecida.
Ela é da impressionante coleção Scenes from the Gaza Strip (via Nassif).





13 Janeiro, 2009 às 9:29 am |
Amigos vamos lembrar dos mais de 400 mil cristãos sudaneses mortos por milicias mussulmanas no Sudão!!
VAMOS LEMBRAR DELES