Uma das grandes argumentações que circulavam na década de 1990, e ainda com peso hoje, afirma que o Brasil tem um estado grande demais se comparado a economias mais avançadas. De outro lado, alguns afirmam que isso era uma falácia…. apesar da palavra carregada de ideologia, a argumentação é mesmo uma falácia.
O estudo mostra que o Brasil tem um estado pequeno para as demadas que deve atender e em comparação a outros países desenvolvidos, emergentes ou latinos. Talvez alguém ainda fique desconfortável com estes dados. Creio que seja porque o Estado brasileiro é ineficiente, embora pequeno.
Esse é um dos alvos que ninguém quer falar e isso mostra que temos um problema de gestão das operações. Muitos falam mal porque Lula aumentou o número de concursos e que substituir terceirizados, mas a verdade é que se a população cobra qualidade, tem que contratar servidores, no mínimo. Esse é um primeiro ponto. O outro é que necessitamos dotar nossa estrutura organizacional de um arranjo mais eficiente, aproveitando os desenvolvimentos das tecnologias de informação e comunicações e inibindo o uso político de cargos e gratificações como no congresso, no executivo, no judiciário, corrupção etc… além é claro de melhores arranjos dos trabalhos internos.
Ou seja, o Brasil não tem um estado grande, mas sim um estado pequeno, relativamente, mas mal gerido estruturalmente. Nenhum político e gestor olha para o estado com vistas a geri-lo, mas sim com vista a “tocar a máquina.” Esse tocar a máquina é mantê-la como estar, é não inovar e nem adotar medidas modernizantes. Ou seja, vou fazer as coisas fluirem como sempre fuiram… Ninguém quer melhorar a máquina qualitativamente.
São dois focos, aumentar quantitativamente a máquina em termos de funcionários e estruturas e qualitativamente em termos de gestão dos trabalhos e estrutura organizacional. Creio que este é o desafio dos próximos políticos, a começar por 2010… se a briga não ficar feia.
Tá aí o recado, o Brasil não tem um estado inchado, apenas mal gerido e com funcionários lenientes, alguns, não todos. Creio que a ineficácio do estado seja um fator desmotivante para os funcionários. Muitos perdem a vontade de mudar, depois que vêem que a luta é grande, difícil e que vai mexer em muitos interesses. Mas a coisas tem que vir da opinião pública, dos funcionários, dos votos nas eleições, de todos os cantos.
Uma pesquisa sobre emprego público, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), chegou a uma conclusão surpreendente: a máquina pública brasileira não está inchada. Comparada à de países desenvolvidos e com os da América Latina, a proporção de servidores públicos na faixa da população economicamente ativa é uma das menores (10,7%), segundo dados computados em 2005.
Em países como Dinamarca e Suécia, mais de 30% dos ocupados estão trabalhando para o estado. Em outros que têm o setor privado como alicerce, caso dos Estados Unidos, o percentual é de 14,8%, também usando dados de 2005. O pesquisador Fernando Augusto de Mattos, observa que a adoção do Estado de Bem-Estar Social por vários países europeus no período pós-Segunda Guerra Mundial fez com que o setor público passasse a ter um peso significativo na promoção do emprego e da qualidade de vida da população. A necessidade de políticas sociais universalistas fez a participação dos empregos públicos crescer mais nos países desenvolvidos do que nos subdesenvolvidos.
Na América Latina, onde a realidade social se assemelha à nacional, o Brasil está em 8º lugar de acordo com dados de 2006 da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Na Argentina, essa relação é de 16,2%; no Paraguai, 13,4%, e no Panamá, primeiro colocado da lista, 17,8%. O processo de democratização recente também pesa na estrutura, comenta o pesquisador. O levantamento leva em consideração todos os trabalhadores empregados pelo Estado em um sentido mais amplo, incluindo administração direta, indireta e estatais de todo tipo.
Diferenças
Os índices dos emergentes — países que também guardam alguma semelhança com o Brasil —, como Índia (68,1%) e África do Sul (34,3%), ficam muito acima do nível nacional. Há um grave problema de formalização de empregos nesses países, comenta Mattos. Na Índia, por exemplo, o alto percentual está relacionado com o elevado contingente de forças militares e de segurança interna. Além da informalidade, o país carrega um baixo grau de desenvolvimento industrial em contraste com a ocupação agrícola.
O economista do Dieese Tiago Oliveira explica que o estudo questiona o discurso de que o Brasil tem um estado inchado, que surgiu nos anos 90. “A idéia de um país pesado e ineficiente caiu sobre o serviço público e se perpetua até hoje.” Porém, observa Oliveira, “ao mesmo tempo em que as pessoas dizem isso, vão aos postos de saúde e esperam por horas, por falta de médicos ou veem os filhos voltarem mais cedo para casa por falta de professores”.
O pesquisador do Ipea Fernando Mattos afirma que o resultado da pesquisa mostra a necessidade de ampliação do acesso da população aos serviços públicos e, por consequência, da ampliação do quadro de pessoas que realizam esses serviços.
Qualificação
Apesar de os números desmistificarem o discurso da máquina inchada, nenhum dos especialistas descarta que há desequilíbrio entre áreas administrativas: algumas têm excessiva carência. Há um déficit grande nas áreas de saúde, educação, mas também nas de auditores fiscais e previdenciários ou mesmo na fiscalização das fronteiras”, alerta Tiago Oliveira. A qualidade, que não foi alvo da pesquisa do Ipea, é lembrada. “Não se pode esquecer que o bom serviço prestado à população depende da qualificação dos servidores”, pondera Mattos.
Servidor da Universidade de Brasília há 32 anos, Cosmo Balbino é contrário à ideia de inchaço do setor público. Para ele, o baixo índice brasileiro diante dos registrados em muitos países não é um indicador ruim. “O Estado sofre de uma carência de médicos e professores. Desde que haja qualificação profissional, não há necessidade de muitos empregados”, avalia. “Com a terceirização do serviço público, há perda de qualidade profissional porque não há critérios rígidos para contratação.”
Balbino entende que o processo de adequação tecnológica dos cargos públicos, incluindo a UnB, resultou numa menor carência de trabalhadores. “A tecnologia acabou com muitos empregos.” Dessa forma, ele sugere uma alternativa para solucionar a falta de vagas de trabalho. “Hoje em dia, há condições de se ter bons salários com poucas pessoas”, avalia.
