Chomsky: um contraponto de respeito

6 março, 2009

Veja esse interessante contraponto de um importante intelectual atualmente em atuação no mundo.

Antes uma introdução do blog Oleo do Diabo

Há alguns anos, no começo do mandato de Lula, perguntaram a Chomsky o que ele achava do presidente brasileiro. Prudente, ele respondeu que ainda não podia afirmar nada de concreto sobre Lula. Ainda não pudera entender o que ele representava para o Brasil. A mídia – incluindo a alternativa – deu grande destaque às suas palavras por causa da interpretação negativa que sugeria, de que Chomsky era mais um daqueles que esnobavam de Lula porque ele não seria um “verdadeiro” esquerdista como Chávez, que sempre usa roupas vermelhas. (…) Em entrevista à Revista Istoé desta semana, Chomsky fala sobre o Brasil, o governo brasileiro e a América Latina. 

 

ISTOÉ – Os Estados Unidos são uma democracia fracassada? 
Chomsky – Se você comparar as eleições de 2008 com as de um dos países mais pobres do hemisfério, a Bolívia, o processo é radicalmente diferente. Você pode gostar ou não das políticas do presidente Evo Morales, mas elas vêm da população. Ele foi escolhido por um eleitorado popular que traçou suas próprias políticas. As questões são muito significativas: controle dos recursos naturais, direitos culturais… A população não se envolveu apenas no dia das eleições, essas lutas estão ocorrendo há anos. Isso é uma democracia. Os Estados Unidos são exatamente o oposto. O melhor comentário sobre as eleições foi feito pela indústria da publicidade, que deu à campanha de Obama o prêmio de melhor campanha de marketing do ano.

ISTOÉ – Alguns presidentes sul-americanos são chamados de populistas. 
Chomsky – Populista quer dizer alguém atento à opinião popular.

ISTOÉ – Mesmo quando a distribuição de recursos não é sustentável? 
Chomsky – Distribuição de recursos tem a ver com política econômica. Nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, a política econômica é definida por instituições financeiras, por pessoas que levaram o país à ruína e estão levando boa parte do mundo à ruína. Isso não é populismo, é política econômica destinada a enriquecer um setor bem pequeno. Você pode até discutir se a forma que Evo Morales distribui recursos é correta, mas chamar isso de populismo é usar palavras feias para políticas que desagradam aos ricos.

ISTOÉ – O presidente Hugo Chávez acaba de passar por um referendo que permite sua reeleição ilimitada. Isso é aceitável em uma democracia? 
Chomsky – Você acha que os Estados Unidos foram um Estado fascista até 1945, quando tínhamos a mesma regra?

O presidente (Franklin) Roosevelt foi eleito quatro vezes seguidas. Eu, pessoalmente, não aprovo, mas não posso dizer que isso seja incompatível com a democracia, a não ser que você diga que os Estados Unidos nunca foram uma democracia. Isso é uma hipocrisia total. Isso vale também para outras democracias parlamentaristas, em que o primeiro-ministro pode ser reeleito de forma indefinida.

ISTOÉ – O sr. avalia o governo Chávez positivamente? 
Chomsky – A pergunta que importa é: o que os venezuelanos pensam do governo? Em pesquisas feitas pelo Latinobarômetro, uma organização chilena muito respeitada, desde a eleição de Chávez, a Venezuela fica no topo ou perto do topo de uma lista de países quanto ao apoio popular ao governo e à democracia.

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