Por que punir os gestores responsáveis pela crise?

23 março, 2009

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A discussão em torno do pagamento de bônus para os diretores das grandes empresas e mesmo a responsabilização destes por parcelas da crise está forte nos EUA e até tem respingos no Brasil como no caso da Embraer. Mas porque tanta ira em relação a estes diretores. Simplesmente porque eles não pagarão o pato pelos seus proprios erros, quebrando a lógica do mercado. Além de se tratar de um grande furo na ideologia dos super-gertores.

Sabe-se nos estudos organizacionais, que grandes organizações possuem maior probabilidade de ter acesso e possuir maiores recursos, sejam estes materiais, financeiros, pessoais ou relativos a pessoas como criatividade, inovação, aprendizagem, e ainda aqueles relacionais, como o poder e redes de contatos e influências. Ainda, as organizações, principalmente aqueles mais complexos e por isso maiores, possuem o que se chama de “slack organizacional”, algo com uma “reserva de recursos” ou “gordura acumulada” que poderia ser “queimada” ou acessadas quando em casos graves. Esta “reserva” não seria uma poupança intencionalmente planejada, ela está dissolvida na estrutura da organização, haja vista que as pessoas possuem uma racionalidade estruturalmente limitada e possibilidades de aperfeiçoamento quase sempre presente. O “slack” permite que haja um bom funcionamento apesar de redundâncias, incoerências, não-otimização e até desperdícios.

Como se vê, uma organização é capaz de suportar períodos de crise e mesmo erros operacionais devido a sua maior capacidade de acesso a recursos e ao “slack” organizacional. Entretanto, isso não pode ser suficiente e uma organização pode conseqüentemente ir à falência. A tendência é que a “não-sobrevivência” e o desaparecimento das organizações atinjam predominantemente aquelas mais novas e pequenas. Algo verificado tanto na literatura como por índices do SEBRAE de mortalidade de empresas, por exemplo.

Assim, o próprio mercado, com suas relações e mecanismos, ofereceria as punições, riscos e conseqüências negativas para um funcionamento e estrutura inadequada ou equivocada ou para o não-acompanhamento e atuação junto a mudanças sociais, legais, econômicas, tecnológicas e culturais. As organizações como um ato de empreender concernente a iniciativa civil, mas relativa ao âmbito privado, traz suas possibilidades de ganho, umbilicalmente ligadas as possibilidades de perdas e de ônus, apesar das maiores capacidades e “slack” das grandes organizações.

Esta atual e grande crise vem nos apresentando alguns dilemas e oportunidades de esclarecimento. Nesta crise, percebe-se que aos governos foi dada a missão não apenas de “salvar” ou sanar os males que atingem o mercado e setores deste, mas também o de escolher algumas seletas organizações para salvá-las. Esta atuação revela que o governo desequilibra aquele jogo de perdas e ganhos relativo à iniciativa civil de cunho privado. Um conjunto pequeno de pessoas em determinados momentos da história de suas empresas teriam uma salvaguarda, um amortecedor de riscos para suas ações, mesmo após queimar todas as possibilidades de defesa que possuía e foi expressa acima. Trata-se, sim, de socializar o ônus relativo a um grupo pequeno de pessoas que atua no âmbito privado.

Claro que não foi um ato para beneficiar amigos e apadrinhados dos governos em que isso foi realizado, mas foi um ato até certo ponto necessário para manter o funcionamento de um setor relevante a sociedade (bancos e imobiliárias, por exemplo) e o mercado de modo geral. São relevantes para a atual estrutural social por nós construída. Mas, mesmo assim, isso significa dilemas e implicações.

É possível situar, assim, o mercado, seus setores e organizações não apenas no âmbito privado, mas também com claras conexões com o âmbito publico e social. O que justificaria não apenas ações do governo para salvá-las de erros que seus próprios agentes comentem, mas também para ações de regulação, intervenção temporária e até redução de atividades de setores específicos, não para se apropriar, mas para garantir que seu funcionamento gere resultados sociais e públicos benefícios. Ou seja, um mercado a serviço da sociedade e dos particulares.

Nesse sentido vale ressaltar que entendimentos econômicos, que muitas vezes ou na maioria são colocados como dogmas inquestionáveis, como a liberalidade total para o mercado ou o maior beneficio social dessas organizações é obter mais e mais lucros, devem ser bem analisados e corrigidos em frente a situações práticas dos mercados e da sociedade.

Voltando a questão central. Essa atuação governamental e esse cunho público das iniciativas civis que se dá no âmbito privado, não podem servir de salvaguarda para que se bloqueiem os ônus e perdas que agentes de mercado devem sofrer devido a suas ações e apostas arriscadas e que não lograram êxito. Se até um agente público que comete erros em ações com fins sociais pagam com punições, porque esses agentes privados que cometeram erros em ações com fins privados deveria ter suas perdas e punições suprimidas?

A falência destas organizações e até a redução drástica de suas atividades e de seus setores seriam o ônus consequente embutidos nos mecanismos de mercado (mas que foram bloqueados por ações públicas). Por isso estes agentes devem pagar as perdas se não de modo equivalente, de modo substancialmente significante. Aqui sabe-se que trabalha-se no âmbito das previsões de perdas, mas que economista não trabalha nessa âmbito?

O bloqueio de pagamentos de bônus é o mínimo necessário. Quem sabe sua demissão, sua ajuda em dinheiro para salvar os bancos sem perspectiva de reembolso no futuro devem ser ações refletidas e efetivadas. Esses mecanismos de amortecedor de riscos podem incentivar ações irresponsáveis e inconseqüentes de agentes privados quando em atuação nas grandes organizações, setores relevantes e atividades com riscos não apenas restrito ao âmbito privado, mas também ao público e social.

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