FSP: o maior (e pior) erro jornalístico do século (XXI)

Você já deve ter ouvido falar da reportagem da Folha de São Paulo sobre uma suposta participação da Ministra Dilma no planejamento do que seria o sequestro do então Ministro militar Delfim Neto. Embora a Ministra tenha negado categoricamente ter participado ou planejado o sequestro, a Folha não levou em conta sua afirmação. 

Para piorar a fonte da reportagem afirma que suas afirmações foram manipuladas para prejudizar a Ministra. Foi nessa linha que o Blog do Mello afirmou que se trata de uma verdadeira reporcagem. Mas o pior estava por vir.  O jornal publicou na capa da via impressa uma ficha que seria da Dilma durante a ditadura, feita pelo Dops. Trata-se de uma ficha falsa, uma fraude, que a Folha assumiu que retirou a ficha de um e-mail (spam) que recebeu! E ainda teve a cara de pau de afirmar que sua veracidade ou falsidade não pode ser provada. Pois bem, a blogosfera cumpriu a ação que um bom reporter deveria fazer e provou que a ficha é uma fraude.

A tal ficha de Dilma, publicada pela Folha de S. Paulo na capa da sua edição de domingo, 5 de abril, é inquestionavelmente uma fraude. Nem é preciso especular se foi feita com máquina elétrica ou não, basta examinar com atenção as distâncias entre as margens da foto e as linhas “impressas” na suposta ficha.

Se fosse autêntica, a foto teria sido colada na ficha. As distâncias entre as margens da foto e as linhas impressas seriam obrigatoriamente irregulares. São perfeitamente paralelas, como só se consegue digitalmente, nunca com papel e cola. Ampliei a imagem e medi, com os instrumentos do Photoshop (provavelmente o programa usado para produzir a fraude). Com toda a ampliação possível, as distâncias entre os cantos superiores esquerdo e direito da foto e a linha impressa são de exatamente três pixels, ou 0,79 milímetros.

Na medida entre a distância da foto e da linha no sentido vertical, maior, a precisão digital se repete.

A distância entre os cantos superior e inferior da foto “colada” e a linha vertical (“impressa”) é, adivinhem, de 3 pixels, ou 0,79 milímetros. Repare agora nas diferenças entre as distâncias entre as margens das fotos e as linhas impressas em verdadeiras fichas policiais.

As distâncias entre as margens das fotos (de Monteiro Lobato e de um desconhecido) e das linhas impressas na ficha (ou datilografadas, no caso de Lobato) variam muito.

O mais curioso: na capa da edição de 5 de abril da FSP, o diagramador teve o cuidado de inclinar a ficha, dando-lhe um aspecto de fac-símile, de fotografia tirada de um original de papel, como se o “fotógrafo” (que nunca existiu) não tivesse conseguido, como é normal acontecer, deixar as linhas no nível horizontal correto.

 

A manipulação era tão evidente que o jornal não teve como não publicar um “erramos”. Só que a Folha errou no “erramos”:

“O primeiro erro foi afirmar na primeira página que a origem da ficha era o ‘arquivo [do] Dops’. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada.”

Não é verdade. A autenticidade da ficha pode ser descartada sem sombra de dúvida. Já o fato do jornal admitir ter publicado em sua capa da edição de domingo um suposto documento de fonte desconhecida é tão vergonhoso que chega a dar pena.

Tudo leva a crer que a Folha de S. Paulo fez de tudo para dar ares de veracidade ao que sabia ser uma fraude. Não seria a primeira vez. (A Folha publicou como verdadeiras as declarações do delegado Edmilson Pereira Bruno – aquele que prendeu os “aloprados” –  que sabia serem falsas.) Quando publica como verdade aquilo que sabe que é mentira, um jornal deixa de ter qualquer utilidade.

Jorge Furtado

Para a Ministra-Chefe da Casa Civil, ainda não terminou o factóide da Folha, sobre sua suposta participação no suposto plano de sequestro do Ministro Delfim Netto. A resposta do jornal – dizendo que não poderia assegurar nem a veracidade nem a falsidade da ficha – deixou a bola quicando na área para a Ministra.

No semi-desmentido sobre a ficha, a Folha fala em uma

ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada.

Não é verdade. A Folha sabia que a ficha era falsa. Se não sabia quando soltou a matéria, certamente foi informada quando escreveu o semidesmentido, pelo responsável pelos arquivos do DOPS, da mesma maneira que ele próprio explicou para Dilma, quando ela o procurou.

A tal ficha tinha sido preenchida por algum sistema em que as letras não têm diferenças entre si – diferente do que acontece com qualquer texto escrito em máquinas de escrever comuns. Logo, só poderia ter saído de um computador ou de uma máquina elétrica. A primeira máquina elétrica da IBM entrou no mercado brasileiro em 1966. Mas em 1970 não existia no DOPS nem um, nem outro. Logo, não poderia haver nenhuma dúvida sobre a falsificação da ficha.

Não foi o único fato comprometedor nessa sucessão de manipulações daquele que provavelmente é o mais grave episódio a comprometer a imagem do jornal nos últimos anos.

Dilma aceitou dar um depoimento para a repórter Fernanda Odilla a pedido do diretor da sucursal da Folha em Brasília, Melchiades Filho.

Na entrevista, foi taxativa em garantir que jamais participara de uma ação armada sequer.

– Sou uma pessoa bastante desinteressante para gerar matérias sobre o período, diz Dilma, porque jamais cometi ação armada, não fui julgada nem interrogada sobre isso.

Dilma era do Colina (Comando de Libertação Nacional). Houve uma aproximação com outro grupo, o VPR, resultando daí o VAR-Palmares. O namoro durou três meses apenas. Acabou por diferenças irreconciliáveis acerca das estratégias a serem adotadas. O Colina defendia a linha de massa; o VAR, a luta armada. O Colina não descartava a resistência ou mesmo a guerrilha futura, mas, naquele momento, não via as mínimas condições para isso. Houve bate-bocas memoráveis, em que o VAR acusava o Colina de ser “de direita”. Esse racha foi exposto por Dilma à repórter da Folha.

Foi um período foi muito curto, antes dos dois grupos serem desbaratados pela repressão. Em novembro de 1969, Antonio Roberto Espinosa – principal fonte da matéria -, do VAR, foi preso. Em janeiro, foi a vez de Dilma ser presa.

Para Dilma, o tal plano de sequestro de Delfim provavelmente era uma ideia pessoal de Espinosa, mas que, se existiu, nunca ganhou forma.

Sua primeira leitura da matéria, foi no Clipping do governo. Por isso não reparou na ficha propriamente dita, que saiu apenas no jornal impresso. Embaixo, a informação de que tinha sido obtida no DOPS. Para Dilma seria impossível que o DOPS tivesse forjado uma ficha com informações falsas. Em 1970, a luta armada estava completamente derrotada, os militantes já estavam presos, não havia necessidade de inventar fichas para ninguém.

Quando viu a ficha no jornal impresso, Dilma deu-se conta do absurdo. A tal ficha já circulava em sites na Internet, como o Ternuma e o Coturno Soturno. Imediatamente ligou para Melchiades, informando-o das suas suspeitas. Ele reiterou que a fonte eram os arquivos do DOPS. Dilma pediu que lhe enviasse o original. Não obteve resposta.

Dois dias depois, Dilma entrou em contato com o responsável pelos arquivos do DOPS e pediu para ver a ficha original. O responsável pelo arquivo foi taxativo. Disse que não só não tinha essa ficha por lá como desconfiava que era falsa, por uma razão óbvia: a tal ficha tinha sido preenchida por algum sistema em que as letras não tinham diferenças entre si – como acontece com qualquer texto escrito em máquinas de escrever manuais. Logo, só podia ter saído de um computador ou de uma máquina elétrica. Em 1970 não existia nem um, nem outro.

A reação de Dilma foi mandar carta para o ombudsman da Folha, relatando toda sua trajetória e relacionando 16 pontos de inconsistência na matéria. Ele não reproduziu a carta, limitando-se a publicar uma pequena nota, dizendo que a Folha deveria checar melhor as fontes.

Agora, Dilma contratou a UnB e a Universidade de São Paulo para produzir novos laudos. Com eles, pretende desmascarar completamente a tese da Folha, de que não seria possível assegurar que a ficha seja falsa.

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