Globo X Record: Poder, manipulação e cobertura

Demorou um pouco é verdade, mas já veio à tona um fato que estava tão na cara e que ninguém fala: a guerra entre as redes Record e Globo. Desde a primeira reportagem do Jornal Nacional sobre a denúncia do Ministério Público de São Paulo que incriminou o bispo Edir Macedo e outros nove membros da Igreja Universal por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro, algo que beneficiou entre outras empresas a Record, ficou claro que a Globo não estava fazendo uma simples cobertura jornalística.

O JN forçou a barra ao dar um grande espaço, ao relembrar o vídeo antigo de Edir Marcedo doutrinando seus pastores, e ao destacar a pretensa cobertura internacional e nacional sobre o caso. Neste momento algo além das denúncias contra o Bispo, a IURD e a Record veio à tona: a intenção da maior rede de TV aberta do Brasil atingir em cheio a imagem e credibilidade da sua maior rival, a Rede Record.

Fiquei esperando para ver os próximos passos, para ver o comportamento da Record e a repercussão da mídia e da internet sobre a guerra. Já que após as denúncias o foco ficou apenas na IURD e na manipulação que pastores estariam fazendo, no rio de dinheiro que o dízimo movimenta entre histórias de pessoas desiludidas. Mas a foco de atenção começa a volta para a guerra das redes, o que é muito bom, pois é um momento único que a população tem para discutir a mídia brasileira através de algo que está bem perto dela a Globo e a Record. É também uma chance de ver o poder destas redes e o passado/presente não muito ético. Creio que Nassif foi um dos primeiros a mostrar, sem comentar o assunto.  Na Paraíba Júnior Miranda também comentou o caso, afirmando que era tudo farinho do mesmo saco. Meus caros leitores, não se assustem com tudo o que está acontecendo. Isso é bom para que entendamos como se dá as relações e o jogo pelo poder da mídia no Brasil. Elas brigam e brigam por quererem aumentar sua influência política e midiática. Cabe a nós brasileiros não entrar nesse joguete. Devemos zelar pela qualidade da programação.

Aí veio o Acerto de Contas, que até então era só críticas a IURD. André foi lá e disse: O melhor de toda essa briga é que as duas emissoras estão corretas, cada uma na sua, claro, com a boa dosagem de parcialidade que seus interesses demandam. Nunca uma briga foi tão pedagógica, tanto para identificar o que se esconde nos cacos da história de cada emissora, quanto para exercitar a percepção de como o jornalismo se traveste do mito da imparcialidade.

Inclusive sugeriu um bom vídeo. Vale a pena mesmo ver. O mais incrível disto foi que a Globo conseguiu que o vídeo não fosse exposto no Brasil, pelo menos são boatos que afirmam por aí. Uma estratégia tipo Xuxa. Trata-se de Muito Além do Cidadão Kane.

Pois bem trato agora uma matéria que vale apenas ler. Ela trata de desvio de finalidade, também. Mostra como não se pode utilizar um espaço público, como a concessão de TV aberta para fazer brigas comerciais. O mais importante disso tudo é a aprendizagem que nós cidadãos teremos sobre a mídia, sobre a necessidade de democratizar a produção de informação e sobre as interpretações parciais e as notícias não noticiadas ou super noticiadas que escondem interesses. Outra coisa, parece-me que a Globo partiu para o tudo ou nada, pois esta disputa dará maior visibilidade a Record e ainda implicará em trazer para frente da mídia os podre da Globo, mas deixa que nisso que eles pesem.

Vejam o primeiro round e a entrevista sobre o uso de espaço público para briga comercial.

Abertura dos telejornais nas duas maiores emissoras do país. Começa mais um capítulo da batalha televisiva iniciada um dia antes entre as redes Globo e Record.

Para além da disputa pela audiência, o incidente desnuda o uso indevido de espaços públicos para disputas particulares. A avaliação é de Laurindo Leal Filho, doutor em ciências da comunicação pela USP (Universidade de São Paulo) e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade.

– São duas empresas comerciais que se utilizam do espaço público – que não é delas, é da sociedade – para resolver pendências comerciais e empresariais. Isso é absolutamente incompatível com o Estado democrático.

Autor de diversos livros sobre o assunto (“A TV sob controle, a resposta da sociedade ao poder da televisão” e “A melhor TV do mundo, o modelo britânico de televisão”, dentre outros), Laurindo avalia, nesta entrevista a Terra Magazine, que a disputa comercial entre os dois canais tem como ponto positivo a exposição da história de “relações promíscuas” da Rede Globo. Além de evidenciar a defesagem e a falta de legislação para o setor de telecomunicações.

O estopim da luta de foice entre os dois canais foi a publicação de reportagem com mais de 10 minutos de duração pelo Jornal Nacional na terça-feira, 11, repercutindo denúncia do Ministério Público de São Paulo que incriminou o bispo Edir Macedo e outros nove membros da Igreja Universal por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

No dia seguinte, o revide. Em reportagem de cerca de 15 minutos veiculada pelo Jornal da Record, a emissora – controlada pela Universal – recorreu a imagens de arquivo para vincular a Globo à ditadura militar e aos escândalos Time-Life e Proconsult. E destacou que a emissora carioca ignorou o movimento Diretas-Já, em 1984.

Nesta quinta-feira, novo round, com os mesmíssimos ingredientes.

Em nota enviada a Terra Magazine, a Central Globo de Comunicação afirma que está dando ao caso Universal “tratamento equivalente” ao que deu a outros fatos jornalísticos, como a deflagração da Operação Satiagraha, em julho de 2008. A central de comunicação da Rede Record afirmou, por sua vez, que a emissora “não está atacando ninguém, apenas respondendo às acusações feitas e aos ataques que partiram da Rede Globo”.

“O que o cidadão em casa tem a ver com a briga entre a empresa Record e a empresa Globo? Ele não tem nada a ver com isso”, critica Laurindo. ” Ele tem que receber um serviço público correto de rádio e TV, que atenda aos seus interesses e as suas necessidades Laurindo”. LEIA A ENTREVISTA AQUI

Vejam isso também: http://www.youtube.com/watch?v=dhGICd1SR4M

Segunda abordaremos um fato correlacionado, como a mídia em geral virou o campo de guerra e de disputais na sociedade. Na sociedade da mídia as disputas se travam na mídia, no discurso. Vamos ver o caso de Israel que está sistematizando este tipo de atuação.

2 respostas para Globo X Record: Poder, manipulação e cobertura

  1. Esse é o tipo de coisa que eu torço é pra feder mesmo. Quanto pior for a briga, mais as coisas vão aparecendo.

    “Olhos”, saiu um texto interessante ontem no Portal Terra, escrito pelo Marcelo Carneiro da Cunha. Não sei se você viu. Caso não, dá uma lida depois.

    http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3921798-EI8423,00-Entre+Globo+e+Record+qual+a+pior.html

    Abraço!

  2. olhosdonorte disse:

    Li não, mas vou ver. Valeu pela indicação. Globo e Record se regem pelo mesmo modelo. Antes de discutir se copiar é bom ou ruim, como já houve muitos falarem, é melhor discutir o modelo e seus limites.

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