Eleições 2010 PB: análises

14 novembro, 2010

Apesar da diferença entre Ricardo e Maranhão ter se reduzido em João Pessoas e Campina Grande, isso não ocorreu devido à perda de votos de Ricardo, pelo contrário. Os dois conquistaram mais votos além daqueles do 1º turno. A diferença é que Maranhão conquistou mais votos que Ricardo nestas duas cidades. Provavelmente pelo aumento que deu nas vésperas da eleição para policiais, agentes e bombeiros (o que para duas cidades com grande peso do funcionalismo é importante), pela campanha do pacto com satanás, atingindo muitos evangélicos fervorosos e crescentes nos grandes centros, e pela maior atuação nos debates, guia e encontros com a comunidade, relevantes nestas cidades.

Ricardo passou de 213 mil para 215 mil em João Pessoa e de 130 mil para 135 mil em Campina.

Maranhão passou de 138 mil para 155 mil em João Pessoa e de 68 mil para 80 mil em Campina.

 

Cássio mostrou que apesar da cassação e de toda a campanha midiática contra sua imagem ainda é forte líder político na Paraíba e principalmente em Campina Grande, onde conseguiu a vitória para Ricardo, Efraim e José Serra. Por outro lado, ele também possui limites, pois não conseguiu eleger Efraim para o Senado. Mesmo ficando em todos os momentos da campanha pedindo voto para ele e afirmando: Cássio é Efraim, Efraim é Cássio.

Os eleitores de Cássio são pessoas a parte. São passionais em sua relação com Cássio, sendo um grande reduto que defende, divulga e conquistas votos. Principalmente os campinenses. Embora não seja suficiente para ganhar uma eleição, é suficiente para não deixá-la morrer.

A relação de Cássio com Ricardo deu uma renovada em sua imagem, garantindo para ele os elementos que podem juntar os cacos quebrados pela cassação. Isso será algo que Cássio terá que saber reconhecer e trabalhar. Assim, como fez Maranhão ao renovar sua imagem quando ficou vários anos ligados à Ricardo.

 

Aquela ideia de que campinense vota em campinense sofreu mais um revés. Embora Ricardo tenha sido adotado por Campina, porque foi adotado por um campinense. Com esta eleição, cada vez mais se pode notar que a relação dos campinenses em termos políticos, não é exatamente com a cidade, mas sim com os Cunha Lima. Não é apenas em um campinense que eles votam, é em Cássio, em um Cunha Lima. Há uma pessoalidade nesta relação.

 

As pesquisas saíram desmoralizadas na Paraíba, principalmente os grandes institutos. Estes mostram que não conhecem bem o comportamento do eleitor paraibano e não possuem metodologia adequada para segmentar o estado, gerando grandes distorções. Por outro lado, os institutos desconhecidos, além destes questionamentos também são tidos como mais passíveis de manipulação e comercialização. Terão longo caminho para acabar com esta imagem.

 

Muitos afirmavam que Ricardo foi apressado e deveria ter aguardado Maranhão governar mais quatro anos, pois depois cederia o lugar para ele. Esqueciam essas pessoas, que daqui a quatro anos, os Vital estariam mais fortes, pois Vitalzinho seria senador, sua Mãe deputada federal e Veneziano ex-prefeito. Além do nome da família, iriam impor a força dos mandatos dentro do próprio partido, sendo difícil abdicar disso para um candidato de outro partido.

Além disto, o que podemos ver agora é que Maranhão não sou soube o momento mais adequado de sair de cena e de ter a humildade de abrir caminho para a renovação política no Estado. Sua ânsia de permanecer no poder a qualquer preço impediu-o de ver o futuro e de saber se colocar nele. Hoje, cada vez mais vivemos um momento de renovações nos vários Estados e a nível federal. Dilma, Eduardo Campos, Aécio, Jacques Wagner apontam para uma transição em que os grandes líderes dessas últimas duas décadas serão conselheiros e políticos de honra.

Maranhão poderia ser o senador da Paraíba junto de Cássio, ficariam no senado, marcando a duas últimas décadas de rivalidade na política paraibana com a abertura e orientação dos novos políticos. Hoje, e se souber fazer, Cássio colherá esses dividendos. A família Vital dominará o PMDB da Paraíba e terá que se colocar como opção a Ricardo, para se viabilizar politicamente, porque não deseja, e a rivalidade não os deixa se unir aos Cunha Lima.

 

 

Ricardo Coutinho terá a oportunidade de pavimentar o seu reduto político no Estado, amplificando sua influência que hoje é forte em João Pessoa e cidades vizinhas. Trilhará o caminho que Cássio e Maranhão já fizeram e poderá se mostrar tão importante eleitoralmente para Cássio, quanto este é hoje para Ricardo.

Em nível nacional terá que construir junto com o PSB e as novas lideranças a renovação política nacional. Sendo nome com competência e histórico para isso, deve buscar desenvolver seu papel e ter seu lugar não apenas como liderança local, mas com projeção nacional. Desde a eleição de Lula, a política nacional passa por grandes transformações reflexos das mudanças sociais. Partidos somem, se fundem e renovam suas lideranças e estilos de gestão pública.

Um momento político do Brasil que começou com a democratização está se fechando, com a derrota de José Serra marcando o encerramento de estilo de governo para transição, e com Lula há um político que soube fechar a porta e mostrar o caminho para o futuro com brilhantismo. Agora é hora dos novos começarem a pensar o País olhando para o futuro e contando com as orientações de quem já governou. Agora não são mais palpiteiros, ou governantes de pequeno porte, o futuro está em suas mãos.

 

Entre as grandes cidades, Mamanguape se mostrou um reduto fortíssimo de Maranhão. Tanto no 1º quanto no 2º turnos obteve diferenças significativas. Quase 10 mil no primeiro e quase 5 mil no segundo turno. A cidade mereceria o agradecimento de Maranhão, que não fez muitos trabalhos por lá, mas que deve ser grato pelo carinho da população.

 

O PT da Paraíba mostra mais uma vez e a cada ano e eleição que simplesmente não tem capacidade de se pôr como partido forte e relevante na história das eleições majoritárias paraibanas. Se eles questionam Ricardo por sua incoerência ao fazer alianças, deveriam pelo menos aprender com Ricardo como não rifar suas bandeiras político-programáticas. Se apequenando diante de partido como PMDB, sofrendo um processo mais forte que aquele ocorrido a nível nacional. Precisam tomar um posicionamento forte com vistas ao futuro da legenda, esquecendo a busca a qualquer preço de mandatos políticos e pensando nas bandeiras, pelo menos nesse momento de transição interna e externa.

 

Ricardo Coutinho assim como muitos trabalhadores se fez “sozinho” sem o nome e a proteção de uma família tradicional. Nesse sentido, rompe com um forte aspecto do coronelismo e patriarcado político. Procurou seus próprios caminhos e se fez um político de grandes conquistas, como muitos profissionais que avança com seus esforços e competências. Assim, ele representa e é representado por esta nova classe média em ascensão que cresceu no rastro dos avanços do Governo Lula. Por isso é significativo a sua vitória nos grandes centros populacionais da Paraíba, principalmente João Pessoa e Campina Grande. Por isso, sua identificação suprapartidária com o governo Lula e do PT.

Assim como Lula, Ricardo representa um novo político que fixa raízes e colhe dividendos em novo eleitorado. Representa em consequência uma mudança de política, já que, governará para este novo público que lhe consagrou votos, a confiança e também as cobranças futuras. Algo que ele já experimentou em João Pessoa. Essa eleição é simbólica por representar essas mudanças políticas e sociais, mas pode ser um marco caso haja sucesso do novo governador em implementar tais políticas voltadas para esta nova e significativa parcela da população. Garantindo ainda um passaporte para sua ascensão a nível nacional.

Processos de transformações econômicas como o petróleo no sertão, o turismo vinculado a eventos como a copa e a reorganização da agricultura e indústria paraibana, em ocorrendo, irão fortalecer esta classe social e política e seu político representante e simbolicamente a ela identificada. Por isso é significativo a afirmativa de Ricardo quando diz que deseja fortalecer o setor privado e consequentemente reduzir o peso do setor público da Paraíba, sem reduzir a qualidade e capilaridade dos serviços públicos.

 

Nesta eleição mais uma vez Zé Maranhão não conseguiu passar o patamar dos 1 milhão de votos. Nem alcançou a sua melhor marca de votos, conquistada no segundo turno de 2006 com 950.269. Na eleição de 1998, com a melhor votação de um governador na Paraíba, em percentual, Maranhão alcançou: 877.852. De lá para cá ele não conseguiu sair de uma média que gira em torno de 900 mil votos. Ou seja, não consegue agregar novos eleitores e conquistar as mentes novas que começam a votar ou a ter consciência do poder de seu voto.

Pode revelar assim, a defasagem de seu discurso em relação aos anseios da população. Mais um indício da necessidade de ter aberto caminho para renovação política.

Outro detalhe, assim como Wilson Braga, que ganhou em 1982 e perdeu três eleições seguidas (1986/1990/1994), Maranhão após ganhar a eleição de 1998 perde três seguidas (2002/2006/2010).

Maranhão e Cunha Lima que emergiram como forças políticas para suplantar o domínio dos Braga, que representam elementos de atrasos da política paraibana na década de 1980 e 1990, se perdem em brigas internas pelo poder, e em paralelo fortalecem seus familiares na política: Maranhão com Benjamin e Olenka e Ronaldo com Cássio e Arthur. Mostrando assim alguns dos resquícios de atrasos políticos. Outro, que Ronaldo nunca se livrará, é a responsabilidade do tiro que deu contra o ex-governador Burity e que usou de todos os artifícios para fugir do julgamento judicial.

Por outro lado, não se pode deixar de registrar como Cunha Lima sabe o momento de entrar numa batalha política, recuar, sair e dar a vez. Desta forma, Ronaldo foi governador em 1990, e apesar da derrota para Maranhão nas eleições internas do PMDB em 1998, Cássio voltou em 2002/2006. E agora abre espaço para Ricardo. O futuro é que mostrar os próximo capítulos desta história.

 

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Eleições 2010 PB: Ricardo vence Maranhão

14 novembro, 2010

A eleição para Governador na Paraíba foi uma página a parte. Para quem tinha a eleição quase ganha, segundo entendimento unânime das pesquisas (VOX POPULI; IBOPE; CONSULT e outras), inclusive a boca-de-urna do IBOPE, José Maranhão amargou uma derrota no 1º turno, para muitos, improvável, mas desejada e trabalhada pela militância e comando de campanha de Ricardo Coutinho.

A primeira parcial da apuração oficial indicava Maranhão a frente, confirmando os números das pesquisas e deixando a eleição com aquele clima de “eu já sabia”, enfim, era o esperado. Mas, a cada nova parcial, Ricardo elevava seu percentual de votos e reduzia a diferença em relação a Maranhão até a parcial em que tomou à dianteira e continuou a subir. Neste momento, já era grande a alegria entre os ricardistas, que puderam enfim ver os seus desejos e projeções confirmadas nas urnas, algo bem melhor e mais confiável que as pesquisas, em que seu candidato sempre estava atrás.

Em vários momentos, Ricardo já contava com percentual para ganhar a eleição no 1º turno. E por algumas parciais isso foi ratificado. Algo que colocava de vez as pesquisas em situação dificílima, sob o manto das suspeitas de manipulação, comercialização e erros graves de execução.  Por fim, Ricardo levou o 1º turno, deixando Maranhistas atordoados, sem entender o que ocorria, e ricacrdistas eufóricos, mas com um gostinho de “poderia ter sido no 1º turno, imagina!”.

Maranhão ganhou na maioria absoluta das cidades, mas perdeu nos grandes centros, aqueles com 20 mil eleitores ou mais. Estas cidades são: Mamanguape, Cabedelo, Bayeux, Santa Rita, Sousa, Cajazeiras, Pombal, São Bento, Patos, Sapé, Guarabira, Queimadas; João Pessoa e Campina Grande. Estas cidades representaram no 1º turno 40,74% dos votos entre aqueles que compareceram as urnas. No 2º turno representaram 43,61% dos votos entre quem compareceu.

Nos grandes centros, Ricardo ganhou com 129.562 votos a mais. A maioria dessa vantagem conquistada com os votos de João Pessoa e Campina Grande, que juntas deram para ele 136.408 votos de vantagem. Caso as votações nessas cidades tivessem sido equilibradas, ou a vitória em Campina anulasse aquela de João Pessoa, Maranhão teria ganhado nas grandes cidades e quem sabe até o 1º turno, pois a diferença final foi de 8.367 pró-ricardo.

No 2º turno, isso se repetiu e Ricardo ganhou com 127.781 votos a mais nos grandes centros. Mas João Pessoas e Campina deram 116.262 votos de vantagem para Ricardo. Ou seja, desta vez ele ganhou no conjunto das cidades grandes, mesmo sem os votos da Capital e Campina. Como?

Esse resultado refletiu o impacto da vitória de Ricardo no 1º turno e o trabalho durante a campanha do 2º turno. A vitória inesperada rendeu adesão de vários prefeitos, incluindo muitos que eram de partidos aliados a Ricardo, mas tinham aderido a Maranhão por promessas de obras, equipamentos e devido às rivalidades internas nas cidades. E diferente de Maranhão, Ricardo trabalhou no 2º turno sem parar, não deixou a militância e a coordenação entrar no clima de já ganhou e a campanha ficou acirrada.

Maranhão que no 1º turno praticamente não aparecia falando no guia e nem participou dos debates (a exceção do primeiro), preservando sua imagem, tinha uma campanha com líderes markteiros e coordenadores fazendo uma grande cortina para preservar o candidato-governador. No 2º turno o candidato resolveu “colocar o rosto para bater”.

Ainda, Maranhão que ganhou as eleições em Pombal, São Bento, Sapé e Queimadas no 1º turno, viu o adversário virar o jogo nessas cidades. Eleitores de Maranhão destas cidades, somados a outros de Sousa e Mamanguape, deixaram de votar em seu candidato. Provavelmente optando pelo voto em Ricardo.

Ao todo foram 7.489 eleitores que deixaram de votar em Maranhão. O que pode ter ocorrido devido à campanha agressiva e até caluniosa do candidato quando colocou a questão do pacto com satanás, afugentando seus próprios eleitores. Ou porque não voltou a comprar os votos desses eleitores, ou porque o candidato opositor comprou esses votos (embora tenha inserido comercial dizendo para eleitores não venderem seus votos, mesmo que os compradores estivessem de laranja e se dizendo da campanha).

Esses 7.489 eleitores representam 0,34% daqueles que comparecem as urnas no 2º turno. Sendo algum insignificante, que desmancha essa ideia de que eleitor na Paraíba é vira casaca, muda de candidato como quem muda de roupa. Pelo contrário, isso parece ser algo mais constante entre os políticos do que entre os eleitores. Esses, quando indecisos preferem votar nulo ou branco. Isso é fato, pois 130.691 eleitores deixaram de votar nulo ou branco para optar por um candidato no 2º turno.

E grande parte do crescimento de Ricardo no 2º turno se deve a conquista dos votos nulos e brancos e daqueles que não compareceram as urnas no 1º turno.

Nesse contexto, a apuração do 2º turno ratificou a vitória de Ricardo, em todas as parciais ele esteve na frente, mantendo o mesmo patamar de vantagem. Maranhão seguiu a mesma trajetória, sempre em segundo e nunca ameaçando a vantagem de Ricardo. Assim, a eleição seguiu o clima do “eu já sabia”, não aquele das pesquisas, mas aquele das ruas e da campanha, em que era nítido a crescimento da empolgação e da participação nas ações de Ricardo. Muitos ricardistas saíram do esconderijo e se expressaram abundantemente no decorrer do 2º turno.