– Que País é esse? – É a porra do Brasil! / Rock Brasília

23 outubro, 2011

Essa reflexão é resultado do filme-documentário “Rock Brasília – Era de ouro”. O filme, para quem viveu esse período e curtiu essas bandas (Plebe, Capital, Legião – poderíamos incluir Paralamas) será bem recebido, e para os mais novos é um resgate de importante período da história musical e nacional.

Esses garotos, hoje adultos, nasceram e cresceram em pleno período ditatorial em famílias bem relacionadas com o Estado e com ótimo padrão econômico. São “filhos da revolução”, a geração coca-cola, segundo Renato Russo. Ao final da década de 1970 e início de 1980, adolescentes, eles colocaram para fora muita coisa do que a população brasileira estava sentindo e pensando, mas represava.

Eles cantaram a transição da ditadura para a democracia, expressaram o sentimento de uma nação e de uma nova geração que junto com eles se apresentavam ao mundo, aos pais, ao país. Um grupo, meninos da colina, que também influenciou uma nova geração que estava nascendo na década de 1980, que nas suas lembranças conscientes já estavam na democracia pensada e construída em 1988, que estava regulamentado muitos de seus dispositivos constitucionais e combatendo males antigos como inflação, desatualização e recessão econômica.

Pois bem, a música símbolo deste grupo, desta época, de um aurea que circundava a nação era uma música de Renato, composta bem antes, mas lançada em 1987:

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Ao olhar para trás, é possível imaginar que este grito ecoava nas bocas de jovens, adolescentes e até crianças e refletia um sentimento: Que País é Esse?

– É isso que devemos mudar.

– Esse não é o país que eu quero.

Era um grito de indignação, de desprazo, mas também de reflexão, de mudança, de apelo em pleno período da campanha de Diretas Já, do final da ditadura, a anistia política, da constituinte, enfim, da mudança e da construção de um novo país. Estava na agora de expurgar “aquele país” ali cantado e esnobado.

Já faz um bom tempo que este refrão vem sempre acompanhado de um “É a porra do Brasil”. Um complemento que já ficou parte da música nos tempos de hoje. Mas que reflete um outro momento, um outro sentimento.

“Que País é esse, é a porra do Brasil”

– É este o país que não tem jeito.

– É o país que você tem que suportar.

Mostra, pois, um sentimento de desilusão, de desistência, de impossibilidade. De todo uma geração que apostou num sonho nascido do questionamento e da rebeldia e que foi levado por caminhos desconhecidos resultando em algo que não era bem o que se queria.

Milhares de filhos da revolução e de filhos da constituição apostaram num país e hoje veem suas apostas e sonhos jogados, esquecidos ou esbarrando em estruturas mais profundas e arcaicas que são difíceis de serem contornadas. Que estão até impregnadas em nos mesmos, e não percebemos.

Essa música perpassa dois momentos, mas reflete um só pensamento e desejo. Marca duas gerações de sonhadores, hoje desiludidos e que vivem na porra do Brasil. Aí pergunto, que mensagem deixamos para a geração que nasceu e cresceu no pós-inflação, no pós-constituição, na era da internet e dos celulares? Que lição a história nos ensinou sobre este país e que está simbolizada nesta música?

Podemos imaginar que uma geração toda tentou e não conseguiu, eles tinham a garra, a vontade, o comprometimento e o sonho, mas conheciam pouco sobre as estruturas políticas e sociais desse brasilzão. Desse país imenso e cheio de contradições e especificidades. Que ainda é possível sim melhorar e mudar, mas que temos que evitar os erros dos filhos da revolução e da constituição. Mas mantendo aquele comprometimento, garra e sonho.

Ou será, que vamos deixar a mensagem que é melhor esquecer tudo isso e curtir um restart e um fresno, ou ficar nas músicas populares que sempre existiram e sempre vão existir para nos fazer relaxar, se divertir e rir.

Bom a sorte está novamente lançada. Qual é o sentimento dessa nova geração e que futura eles desejam? O que deixamos de lição para nossos filhos? Como será contada a música “que país é esse”?

————————-

Não podemos viver nesse luta fratricida entre grupos políticos e sociais que construíram o Brasil de hoje. Deve-se reconhecer que não se atingiu o alvo, que temos que rever a estratégia, os caminhos e objetivos e nos unir, pois ainda se canta “a porra do Brasil”. A mudança é mais profunda e complexa e começa na nossa casa. Cada qual tem o seu papel e não se pode externalizar culpas apenas para o congresso.