– Que País é esse? – É a porra do Brasil! / Rock Brasília

23 outubro, 2011

Essa reflexão é resultado do filme-documentário “Rock Brasília – Era de ouro”. O filme, para quem viveu esse período e curtiu essas bandas (Plebe, Capital, Legião – poderíamos incluir Paralamas) será bem recebido, e para os mais novos é um resgate de importante período da história musical e nacional.

Esses garotos, hoje adultos, nasceram e cresceram em pleno período ditatorial em famílias bem relacionadas com o Estado e com ótimo padrão econômico. São “filhos da revolução”, a geração coca-cola, segundo Renato Russo. Ao final da década de 1970 e início de 1980, adolescentes, eles colocaram para fora muita coisa do que a população brasileira estava sentindo e pensando, mas represava.

Eles cantaram a transição da ditadura para a democracia, expressaram o sentimento de uma nação e de uma nova geração que junto com eles se apresentavam ao mundo, aos pais, ao país. Um grupo, meninos da colina, que também influenciou uma nova geração que estava nascendo na década de 1980, que nas suas lembranças conscientes já estavam na democracia pensada e construída em 1988, que estava regulamentado muitos de seus dispositivos constitucionais e combatendo males antigos como inflação, desatualização e recessão econômica.

Pois bem, a música símbolo deste grupo, desta época, de um aurea que circundava a nação era uma música de Renato, composta bem antes, mas lançada em 1987:

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

Ao olhar para trás, é possível imaginar que este grito ecoava nas bocas de jovens, adolescentes e até crianças e refletia um sentimento: Que País é Esse?

– É isso que devemos mudar.

– Esse não é o país que eu quero.

Era um grito de indignação, de desprazo, mas também de reflexão, de mudança, de apelo em pleno período da campanha de Diretas Já, do final da ditadura, a anistia política, da constituinte, enfim, da mudança e da construção de um novo país. Estava na agora de expurgar “aquele país” ali cantado e esnobado.

Já faz um bom tempo que este refrão vem sempre acompanhado de um “É a porra do Brasil”. Um complemento que já ficou parte da música nos tempos de hoje. Mas que reflete um outro momento, um outro sentimento.

“Que País é esse, é a porra do Brasil”

– É este o país que não tem jeito.

– É o país que você tem que suportar.

Mostra, pois, um sentimento de desilusão, de desistência, de impossibilidade. De todo uma geração que apostou num sonho nascido do questionamento e da rebeldia e que foi levado por caminhos desconhecidos resultando em algo que não era bem o que se queria.

Milhares de filhos da revolução e de filhos da constituição apostaram num país e hoje veem suas apostas e sonhos jogados, esquecidos ou esbarrando em estruturas mais profundas e arcaicas que são difíceis de serem contornadas. Que estão até impregnadas em nos mesmos, e não percebemos.

Essa música perpassa dois momentos, mas reflete um só pensamento e desejo. Marca duas gerações de sonhadores, hoje desiludidos e que vivem na porra do Brasil. Aí pergunto, que mensagem deixamos para a geração que nasceu e cresceu no pós-inflação, no pós-constituição, na era da internet e dos celulares? Que lição a história nos ensinou sobre este país e que está simbolizada nesta música?

Podemos imaginar que uma geração toda tentou e não conseguiu, eles tinham a garra, a vontade, o comprometimento e o sonho, mas conheciam pouco sobre as estruturas políticas e sociais desse brasilzão. Desse país imenso e cheio de contradições e especificidades. Que ainda é possível sim melhorar e mudar, mas que temos que evitar os erros dos filhos da revolução e da constituição. Mas mantendo aquele comprometimento, garra e sonho.

Ou será, que vamos deixar a mensagem que é melhor esquecer tudo isso e curtir um restart e um fresno, ou ficar nas músicas populares que sempre existiram e sempre vão existir para nos fazer relaxar, se divertir e rir.

Bom a sorte está novamente lançada. Qual é o sentimento dessa nova geração e que futura eles desejam? O que deixamos de lição para nossos filhos? Como será contada a música “que país é esse”?

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Não podemos viver nesse luta fratricida entre grupos políticos e sociais que construíram o Brasil de hoje. Deve-se reconhecer que não se atingiu o alvo, que temos que rever a estratégia, os caminhos e objetivos e nos unir, pois ainda se canta “a porra do Brasil”. A mudança é mais profunda e complexa e começa na nossa casa. Cada qual tem o seu papel e não se pode externalizar culpas apenas para o congresso.


O que é isso companheiro? Qual o sentido das ações do PT-PB?

4 junho, 2011

O PT da Paraíba é um caso aparte no cenário político estadual. Trata-se nada mais, nada menos, que o partido de origem do atual Governador, que não simplesmente passou pela sigla, como foi um de seus grandes destaques durante mais de dez anos.

Não deixou o partido por falta de identificação, mas por divergências internas e vontade de ocupar o cargo de Prefeito quando surgir claramente uma grande oportunidade. O que conseguiu em 2004 com certa comodidade. Ao deixar o PT, Ricardo Coutinho se filiou ao PSB, partido histórica e umbilicalmente ligado ao PT, podendo ser chamado de um de seus satélites.

Diferente de muitos que deixaram o PT durante os anos Lula e já anteriormente, Ricardo não se mostrou um político dito de extrema esquerda, que deixaram o PT por sua uma guinada ao centro. Pelo contrário, Ricardo, mesmo fora do PT representa bem esta guinada, que por osmose ou consequência faz seus partidos irmãos, como o PSB, PCdoB e outros, também executarem.

Ou seja, seria natural esperar do PT um apoio mais forte ao PSB de um candidato que crescia exponencialmente desde quando era vereador. Assim como o PT espera de seus “irmãos” um apoio, seja no primeiro ou segundo turno (aqui para os chamados de extrema esquerda), era de esperar o apoio recíproco ao PSB. Entretanto, as brigas internas deixaram marcas profundas e pessoais, que fizeram muitos petistas esquecerem sua origem comum, sua ideias similares e o seu campo político para comprarem uma briga auto-fágica.

Quando Ricardo se aliou ao PMDB (2003) e depois ao PSDB e DEM (2010) disseram que este seria o seu fim, que o PSB não teria hegemonia na coligação, assim como o PT tem a nível nacional na sua aliança com o PL (2001) e depois com o PMDB (2003) e outros. Mas o histórico vem mostrando o contrário, Ricardo soube construir a hegemonia usando um projeto político como mecanismo de união e correção de rumos.

Ao ocupar cada vez mais o espectro de esquerda na PB e ao conquistar os novos eleitores simpatizantes do estilo PT/Lula de governar, Ricardo e o PSB foi sufocando um PT, já em definhamento, simplesmente pela falta de espaço. Eles lutam e brigam pelos mesmos eleitores, por mentes e ideias similares e  pelo estilo de governar da nova esquerda de grande influência lulista.

Para completar a sina do PT da PB este tomou atitudes e agiu de forma descompassadas com os novos caminhos da política brasileira. Em vez de fortalecer o centro-esquerda local, fomentou o conflito e a separação unicamente para projetar seus próprios políticos e não suas ideias. Passou a ser massa de manobra e escorra para outros partidos, em particular o PMDB.

O PT parece falar para o PSB: sua estrela não pode brilhar mais que a minha. Você não pode ocupar o espaço e aproveitar a oportunidade que sempre sonhamos. Essa conquista deveria ser nossa por direito. Entretanto, foi o próprio PT que construiu este rumo e esta história, por suas opções que o passado e agora o presente mostram ser equivocadas.

Quem entende esse oposição acirrada do PT em relação ao governo do PSB de Ricardo? Teoricamente quem teria mais interesse nesse tipo de ação política seria o PMDB, que se sentiu traído por querer sufocar seu grande coringa e uma de suas forças aliadas, o Ricardo Coutinho. Porque isso? Porque querer tomar um espaço de centro-esquerda em consolidação pela liderança do PSB? Porque o PT se sente tão ofendido com o Governo do PSB? Porque tomam as dores de uma oposição que é mais de Maranhão/PMDB em relação a Cássio e Ricardo?

Durante a vice-governadoria no Maranhão III, o PT não fez valer seu estilo de governar. Não fez valer sua posição de “braço direito” da aliança. Não fez valer o espaço que ocupou.

Assim, resta ao PT pensar: que espaço e estilo de governo ele quer se apropriar, aquele do PMDB ou aquele do PSB? Ainda, que avanço o PT quer mostrar em relação ao PSB? O que o PT está comunicando, um partido a la PMDB ou um partido além PSB?

Se alimentar de um antagonismo (Cássio – Maranhão) como mote para sua alavancagem é seguir o caminho oposto que se vê a nível nacional – aquele de superação do antagonismo PT-PSDB. O PT local pode estar fazendo o caminho do PSDB nacional, direcionando-se a uma centro-direita por oposição a uma visão/partido de centro-esquerda em consolidação. Esse caminho está transmutando o PSDB que tem como destino retirar a Social-Democracia de sua sigla.


Caos na Saúde do Estado? Buscando soluções ou aumentando o problema?

31 maio, 2011

Muitos querem fazer crer que existe um caos generalizado no sistema de saúde do Estado, assim como já buscaram, durante anos, criar a mesma sensação em relação à saúde do município de João Pessoa.  Existem problemas? Sim, existem.  A estrutura e funcionamento do SUS no Estado continua a mesma e não é em 06 meses que isso mudaria, principalmente numa área tão complexa para se construir prédios, compras equipamentos e reorganizar o atendimento. Existem problemas graves, hoje? Sim, existem, e eles decorrem do “órgão” mais sensível do corpo humano, o bolso. Cirurgiões estão pleiteando a continuação de uma remuneração obtida no ano passado, e o Estado não possui margem para comprometer com o pagamento de pessoal. Esse impasse gerou a morte de um paciente, pois os médicos não foram trabalhar.

Agora, há esse caos no SUS que muitos políticos e jornalistas querem fazer a população acreditar? Hoje mesmo, o WSCOM relatou a morte de uma mulher por atendimento ineficiente ou mesmo erro médico. Isso é só um tijolo de algo cada vez mais constante na mídia, o relato de casos específicos para “mostrar” o pretenso caos. Destacam-se inspeções, atendimento ineficiente, superlotação etc. Coisas que já ocorriam, mas que antes, não despertava a sensibilidade dessas pessoas. Fica aí a pergunta? Porque isso agora?

Será que elas estão realmente interessadas em discutir saúde pública, em lutar pela melhoria do atendimento à população. Será? Então vamos sair da superfície. E os casos de atendimento ineficiente, filas, superlotação, erros médicos e até mortes da UNIMED? Em reportagem recente na Revista Politika esse assunto foi colocado, e isso corre na boca da rua. Mas isso não é saúde pública? Isso não interessa? Esses problemas e mortes são diferentes?

Parece que há um bloqueio, ninguém pode falar continuamente da Unimed, no máximo colocar uma nota para dizer que registrou a notícia. Devem ter medo de perder a publicidade, já que uma empresa privada pode escolher livremente onde anunciar e diferente do Estado não será taxada de perseguidora, de alguém que deseja destruir a imprensa.

Mas, podem dizer que quem tem Unimed é rico e que temos que lutar pelos pobres? Será? Quantas pessoas que melhoraram de vida no Governo Lula não buscaram fazer um Unimed Saúde (plano mais em conta da empresa), quantos servidores públicos, “perseguidos pelo Estado”, não tem Unimed?

A questão da saúde é grave no Estado, e no Brasil. Isso não é de hoje, o que há de novo no front é greve dos médicos, terceirizados, que causou a paralisação do hospital e morte de uma pessoa. Vamos buscar soluções para uma saúde que está doente e incluir na discussão o atendimento por empresas privadas, que na verdade foi pensada como uma solução paliativa, pois o SUS não comportava dá atendimento de qualidade para todos. Vamos discutir concursos para a área e a reorganização do sistema a nível estadual, a qualidade do atendimento e os erros médicos, o cumprimento de 30% do efetivo em caso de greve, e tantas outras idéias legais de devem estar por aí ocultadas por brigas políticas.

Mas isso não parece ser a intenção de políticos e jornalistas. Mas qual seria a intenção? Devem ter várias: obter visibilidade, se mostrar como estando do lado da população pobre, raiva e intriga pessoal com o governador, e busca por dividendos políticos, ter dois pesos e duas medidas. Para isso cada vez mais eles entraram num vale tudo, no quanto pior melhor. Mas a população sabe diferenciar quando há uma cobrança e quando há uma intriga. Quando há sinceridade nas falas e quando há maldade. Infelizmente alguns populares estão pensando como esses e também querem o quanto pior melhor, o vale tudo político. Pois na PB a disputa política começa após o 31 de outubro.

A crise com os médicos é grave e o Estado não pode ser acusado de não ter tentado resolver ou de não estar dialogando. Pode ser acusado de não ter competência na finalização da crise, ou de não ter um dialogo competente. Mas que ele está dialogando, buscando saídas e tentando resolver, ele está sim.

Vamos buscar um caminho decente de luta política e vamos discutir com qualidade as soluções e problemas da saúde no Estado. E isso vale pra educação, segurança e transporte. Jornalista e político são pagos para qualificar o debate, para informar melhor a população e para ajudar na busca de soluções qualificadas. Não para criar um circo por interesses ocultos e deixar a interesse do povo em segundo plano. Solução de curso prazo não é solução.


Eleições 2010 PB: análises

14 novembro, 2010

Apesar da diferença entre Ricardo e Maranhão ter se reduzido em João Pessoas e Campina Grande, isso não ocorreu devido à perda de votos de Ricardo, pelo contrário. Os dois conquistaram mais votos além daqueles do 1º turno. A diferença é que Maranhão conquistou mais votos que Ricardo nestas duas cidades. Provavelmente pelo aumento que deu nas vésperas da eleição para policiais, agentes e bombeiros (o que para duas cidades com grande peso do funcionalismo é importante), pela campanha do pacto com satanás, atingindo muitos evangélicos fervorosos e crescentes nos grandes centros, e pela maior atuação nos debates, guia e encontros com a comunidade, relevantes nestas cidades.

Ricardo passou de 213 mil para 215 mil em João Pessoa e de 130 mil para 135 mil em Campina.

Maranhão passou de 138 mil para 155 mil em João Pessoa e de 68 mil para 80 mil em Campina.

 

Cássio mostrou que apesar da cassação e de toda a campanha midiática contra sua imagem ainda é forte líder político na Paraíba e principalmente em Campina Grande, onde conseguiu a vitória para Ricardo, Efraim e José Serra. Por outro lado, ele também possui limites, pois não conseguiu eleger Efraim para o Senado. Mesmo ficando em todos os momentos da campanha pedindo voto para ele e afirmando: Cássio é Efraim, Efraim é Cássio.

Os eleitores de Cássio são pessoas a parte. São passionais em sua relação com Cássio, sendo um grande reduto que defende, divulga e conquistas votos. Principalmente os campinenses. Embora não seja suficiente para ganhar uma eleição, é suficiente para não deixá-la morrer.

A relação de Cássio com Ricardo deu uma renovada em sua imagem, garantindo para ele os elementos que podem juntar os cacos quebrados pela cassação. Isso será algo que Cássio terá que saber reconhecer e trabalhar. Assim, como fez Maranhão ao renovar sua imagem quando ficou vários anos ligados à Ricardo.

 

Aquela ideia de que campinense vota em campinense sofreu mais um revés. Embora Ricardo tenha sido adotado por Campina, porque foi adotado por um campinense. Com esta eleição, cada vez mais se pode notar que a relação dos campinenses em termos políticos, não é exatamente com a cidade, mas sim com os Cunha Lima. Não é apenas em um campinense que eles votam, é em Cássio, em um Cunha Lima. Há uma pessoalidade nesta relação.

 

As pesquisas saíram desmoralizadas na Paraíba, principalmente os grandes institutos. Estes mostram que não conhecem bem o comportamento do eleitor paraibano e não possuem metodologia adequada para segmentar o estado, gerando grandes distorções. Por outro lado, os institutos desconhecidos, além destes questionamentos também são tidos como mais passíveis de manipulação e comercialização. Terão longo caminho para acabar com esta imagem.

 

Muitos afirmavam que Ricardo foi apressado e deveria ter aguardado Maranhão governar mais quatro anos, pois depois cederia o lugar para ele. Esqueciam essas pessoas, que daqui a quatro anos, os Vital estariam mais fortes, pois Vitalzinho seria senador, sua Mãe deputada federal e Veneziano ex-prefeito. Além do nome da família, iriam impor a força dos mandatos dentro do próprio partido, sendo difícil abdicar disso para um candidato de outro partido.

Além disto, o que podemos ver agora é que Maranhão não sou soube o momento mais adequado de sair de cena e de ter a humildade de abrir caminho para a renovação política no Estado. Sua ânsia de permanecer no poder a qualquer preço impediu-o de ver o futuro e de saber se colocar nele. Hoje, cada vez mais vivemos um momento de renovações nos vários Estados e a nível federal. Dilma, Eduardo Campos, Aécio, Jacques Wagner apontam para uma transição em que os grandes líderes dessas últimas duas décadas serão conselheiros e políticos de honra.

Maranhão poderia ser o senador da Paraíba junto de Cássio, ficariam no senado, marcando a duas últimas décadas de rivalidade na política paraibana com a abertura e orientação dos novos políticos. Hoje, e se souber fazer, Cássio colherá esses dividendos. A família Vital dominará o PMDB da Paraíba e terá que se colocar como opção a Ricardo, para se viabilizar politicamente, porque não deseja, e a rivalidade não os deixa se unir aos Cunha Lima.

 

 

Ricardo Coutinho terá a oportunidade de pavimentar o seu reduto político no Estado, amplificando sua influência que hoje é forte em João Pessoa e cidades vizinhas. Trilhará o caminho que Cássio e Maranhão já fizeram e poderá se mostrar tão importante eleitoralmente para Cássio, quanto este é hoje para Ricardo.

Em nível nacional terá que construir junto com o PSB e as novas lideranças a renovação política nacional. Sendo nome com competência e histórico para isso, deve buscar desenvolver seu papel e ter seu lugar não apenas como liderança local, mas com projeção nacional. Desde a eleição de Lula, a política nacional passa por grandes transformações reflexos das mudanças sociais. Partidos somem, se fundem e renovam suas lideranças e estilos de gestão pública.

Um momento político do Brasil que começou com a democratização está se fechando, com a derrota de José Serra marcando o encerramento de estilo de governo para transição, e com Lula há um político que soube fechar a porta e mostrar o caminho para o futuro com brilhantismo. Agora é hora dos novos começarem a pensar o País olhando para o futuro e contando com as orientações de quem já governou. Agora não são mais palpiteiros, ou governantes de pequeno porte, o futuro está em suas mãos.

 

Entre as grandes cidades, Mamanguape se mostrou um reduto fortíssimo de Maranhão. Tanto no 1º quanto no 2º turnos obteve diferenças significativas. Quase 10 mil no primeiro e quase 5 mil no segundo turno. A cidade mereceria o agradecimento de Maranhão, que não fez muitos trabalhos por lá, mas que deve ser grato pelo carinho da população.

 

O PT da Paraíba mostra mais uma vez e a cada ano e eleição que simplesmente não tem capacidade de se pôr como partido forte e relevante na história das eleições majoritárias paraibanas. Se eles questionam Ricardo por sua incoerência ao fazer alianças, deveriam pelo menos aprender com Ricardo como não rifar suas bandeiras político-programáticas. Se apequenando diante de partido como PMDB, sofrendo um processo mais forte que aquele ocorrido a nível nacional. Precisam tomar um posicionamento forte com vistas ao futuro da legenda, esquecendo a busca a qualquer preço de mandatos políticos e pensando nas bandeiras, pelo menos nesse momento de transição interna e externa.

 

Ricardo Coutinho assim como muitos trabalhadores se fez “sozinho” sem o nome e a proteção de uma família tradicional. Nesse sentido, rompe com um forte aspecto do coronelismo e patriarcado político. Procurou seus próprios caminhos e se fez um político de grandes conquistas, como muitos profissionais que avança com seus esforços e competências. Assim, ele representa e é representado por esta nova classe média em ascensão que cresceu no rastro dos avanços do Governo Lula. Por isso é significativo a sua vitória nos grandes centros populacionais da Paraíba, principalmente João Pessoa e Campina Grande. Por isso, sua identificação suprapartidária com o governo Lula e do PT.

Assim como Lula, Ricardo representa um novo político que fixa raízes e colhe dividendos em novo eleitorado. Representa em consequência uma mudança de política, já que, governará para este novo público que lhe consagrou votos, a confiança e também as cobranças futuras. Algo que ele já experimentou em João Pessoa. Essa eleição é simbólica por representar essas mudanças políticas e sociais, mas pode ser um marco caso haja sucesso do novo governador em implementar tais políticas voltadas para esta nova e significativa parcela da população. Garantindo ainda um passaporte para sua ascensão a nível nacional.

Processos de transformações econômicas como o petróleo no sertão, o turismo vinculado a eventos como a copa e a reorganização da agricultura e indústria paraibana, em ocorrendo, irão fortalecer esta classe social e política e seu político representante e simbolicamente a ela identificada. Por isso é significativo a afirmativa de Ricardo quando diz que deseja fortalecer o setor privado e consequentemente reduzir o peso do setor público da Paraíba, sem reduzir a qualidade e capilaridade dos serviços públicos.

 

Nesta eleição mais uma vez Zé Maranhão não conseguiu passar o patamar dos 1 milhão de votos. Nem alcançou a sua melhor marca de votos, conquistada no segundo turno de 2006 com 950.269. Na eleição de 1998, com a melhor votação de um governador na Paraíba, em percentual, Maranhão alcançou: 877.852. De lá para cá ele não conseguiu sair de uma média que gira em torno de 900 mil votos. Ou seja, não consegue agregar novos eleitores e conquistar as mentes novas que começam a votar ou a ter consciência do poder de seu voto.

Pode revelar assim, a defasagem de seu discurso em relação aos anseios da população. Mais um indício da necessidade de ter aberto caminho para renovação política.

Outro detalhe, assim como Wilson Braga, que ganhou em 1982 e perdeu três eleições seguidas (1986/1990/1994), Maranhão após ganhar a eleição de 1998 perde três seguidas (2002/2006/2010).

Maranhão e Cunha Lima que emergiram como forças políticas para suplantar o domínio dos Braga, que representam elementos de atrasos da política paraibana na década de 1980 e 1990, se perdem em brigas internas pelo poder, e em paralelo fortalecem seus familiares na política: Maranhão com Benjamin e Olenka e Ronaldo com Cássio e Arthur. Mostrando assim alguns dos resquícios de atrasos políticos. Outro, que Ronaldo nunca se livrará, é a responsabilidade do tiro que deu contra o ex-governador Burity e que usou de todos os artifícios para fugir do julgamento judicial.

Por outro lado, não se pode deixar de registrar como Cunha Lima sabe o momento de entrar numa batalha política, recuar, sair e dar a vez. Desta forma, Ronaldo foi governador em 1990, e apesar da derrota para Maranhão nas eleições internas do PMDB em 1998, Cássio voltou em 2002/2006. E agora abre espaço para Ricardo. O futuro é que mostrar os próximo capítulos desta história.

 


Eleições 2010 PB: Ricardo vence Maranhão

14 novembro, 2010

A eleição para Governador na Paraíba foi uma página a parte. Para quem tinha a eleição quase ganha, segundo entendimento unânime das pesquisas (VOX POPULI; IBOPE; CONSULT e outras), inclusive a boca-de-urna do IBOPE, José Maranhão amargou uma derrota no 1º turno, para muitos, improvável, mas desejada e trabalhada pela militância e comando de campanha de Ricardo Coutinho.

A primeira parcial da apuração oficial indicava Maranhão a frente, confirmando os números das pesquisas e deixando a eleição com aquele clima de “eu já sabia”, enfim, era o esperado. Mas, a cada nova parcial, Ricardo elevava seu percentual de votos e reduzia a diferença em relação a Maranhão até a parcial em que tomou à dianteira e continuou a subir. Neste momento, já era grande a alegria entre os ricardistas, que puderam enfim ver os seus desejos e projeções confirmadas nas urnas, algo bem melhor e mais confiável que as pesquisas, em que seu candidato sempre estava atrás.

Em vários momentos, Ricardo já contava com percentual para ganhar a eleição no 1º turno. E por algumas parciais isso foi ratificado. Algo que colocava de vez as pesquisas em situação dificílima, sob o manto das suspeitas de manipulação, comercialização e erros graves de execução.  Por fim, Ricardo levou o 1º turno, deixando Maranhistas atordoados, sem entender o que ocorria, e ricacrdistas eufóricos, mas com um gostinho de “poderia ter sido no 1º turno, imagina!”.

Maranhão ganhou na maioria absoluta das cidades, mas perdeu nos grandes centros, aqueles com 20 mil eleitores ou mais. Estas cidades são: Mamanguape, Cabedelo, Bayeux, Santa Rita, Sousa, Cajazeiras, Pombal, São Bento, Patos, Sapé, Guarabira, Queimadas; João Pessoa e Campina Grande. Estas cidades representaram no 1º turno 40,74% dos votos entre aqueles que compareceram as urnas. No 2º turno representaram 43,61% dos votos entre quem compareceu.

Nos grandes centros, Ricardo ganhou com 129.562 votos a mais. A maioria dessa vantagem conquistada com os votos de João Pessoa e Campina Grande, que juntas deram para ele 136.408 votos de vantagem. Caso as votações nessas cidades tivessem sido equilibradas, ou a vitória em Campina anulasse aquela de João Pessoa, Maranhão teria ganhado nas grandes cidades e quem sabe até o 1º turno, pois a diferença final foi de 8.367 pró-ricardo.

No 2º turno, isso se repetiu e Ricardo ganhou com 127.781 votos a mais nos grandes centros. Mas João Pessoas e Campina deram 116.262 votos de vantagem para Ricardo. Ou seja, desta vez ele ganhou no conjunto das cidades grandes, mesmo sem os votos da Capital e Campina. Como?

Esse resultado refletiu o impacto da vitória de Ricardo no 1º turno e o trabalho durante a campanha do 2º turno. A vitória inesperada rendeu adesão de vários prefeitos, incluindo muitos que eram de partidos aliados a Ricardo, mas tinham aderido a Maranhão por promessas de obras, equipamentos e devido às rivalidades internas nas cidades. E diferente de Maranhão, Ricardo trabalhou no 2º turno sem parar, não deixou a militância e a coordenação entrar no clima de já ganhou e a campanha ficou acirrada.

Maranhão que no 1º turno praticamente não aparecia falando no guia e nem participou dos debates (a exceção do primeiro), preservando sua imagem, tinha uma campanha com líderes markteiros e coordenadores fazendo uma grande cortina para preservar o candidato-governador. No 2º turno o candidato resolveu “colocar o rosto para bater”.

Ainda, Maranhão que ganhou as eleições em Pombal, São Bento, Sapé e Queimadas no 1º turno, viu o adversário virar o jogo nessas cidades. Eleitores de Maranhão destas cidades, somados a outros de Sousa e Mamanguape, deixaram de votar em seu candidato. Provavelmente optando pelo voto em Ricardo.

Ao todo foram 7.489 eleitores que deixaram de votar em Maranhão. O que pode ter ocorrido devido à campanha agressiva e até caluniosa do candidato quando colocou a questão do pacto com satanás, afugentando seus próprios eleitores. Ou porque não voltou a comprar os votos desses eleitores, ou porque o candidato opositor comprou esses votos (embora tenha inserido comercial dizendo para eleitores não venderem seus votos, mesmo que os compradores estivessem de laranja e se dizendo da campanha).

Esses 7.489 eleitores representam 0,34% daqueles que comparecem as urnas no 2º turno. Sendo algum insignificante, que desmancha essa ideia de que eleitor na Paraíba é vira casaca, muda de candidato como quem muda de roupa. Pelo contrário, isso parece ser algo mais constante entre os políticos do que entre os eleitores. Esses, quando indecisos preferem votar nulo ou branco. Isso é fato, pois 130.691 eleitores deixaram de votar nulo ou branco para optar por um candidato no 2º turno.

E grande parte do crescimento de Ricardo no 2º turno se deve a conquista dos votos nulos e brancos e daqueles que não compareceram as urnas no 1º turno.

Nesse contexto, a apuração do 2º turno ratificou a vitória de Ricardo, em todas as parciais ele esteve na frente, mantendo o mesmo patamar de vantagem. Maranhão seguiu a mesma trajetória, sempre em segundo e nunca ameaçando a vantagem de Ricardo. Assim, a eleição seguiu o clima do “eu já sabia”, não aquele das pesquisas, mas aquele das ruas e da campanha, em que era nítido a crescimento da empolgação e da participação nas ações de Ricardo. Muitos ricardistas saíram do esconderijo e se expressaram abundantemente no decorrer do 2º turno.

 


O vírus que destrói a política paraibana

17 agosto, 2010

A estrutura política paraibana é totalmente desgastada e antiquada aos novos tempos de democracia e cultura social. Neste post pretendo mostrar como um conjunto de famílias domina as estruturas de poder do Estado para obtenção de benefícios próprios.

Tem-se aqui um conjunto de famílias de sobrenome famoso como os Cunha Lima, Targino Maranhão, Morais, Paulino, Lucena, Maroja, Motta, Gadelha, Pessoa, Braga, Maia, Vital do Rego, Fernandes entre outras. Cada família tem enorme influência sobre pequenas regiões do Estado, suas influências não obedecem a limites municipais, até porque esses limites são artificiais e escondem a história de regiões e povos. Quando colocamos essas famílias no mapa vemos um Estado loteado, onde não há uma força hegemônica.

Em processos eleitorais majoritários, como para Governo de Estado, essas forças familiares se unem para eleger um candidato aparentemente de maior penetração estadual. Este candidato deve pertencer a alguma destas famílias e/ou deve querer fazer o jogo delas. Em troca do apoio familiar o candidato oferece um pedaço da estrutura de poder do Estado para um representante de cada família, caso venha a ganhar. Assim, eles loteiam o poder político e formal do Estado de direito, formam uma verdadeira associação, uma irmandade. Deste modo, eles continuam na política, obtêm visibilidade, um salário agradável e a possibilidade de inúmeros instrumentos de troca política para aliciar e comprar forças municipais, vereadores, lideres locais e “profissionais” que detêm espaços na mídia.

Assim se monta uma bela estrutura de campanha e de poder. Somando as várias forças elege-se um Governador ou Senador e estes fazem negociações com os candidatos à presidência para obter apoios e verbas.

Este esquema serve apenas para beneficiar seus participantes e para perpetuá-los na política impedindo renovações. Quando surgem forças novas, pois a realidade é incontrolável, elas têm que se aliar com algumas ou muitas famílias. E por muitas vezes se entregam ao esquema de troca de apoios, esquecendo o elemento que lhe dava o ar de renovação: a possibilidade de quebrar tais estruturas ou oferecer rachaduras.

Quando ocupando o poder, o Governador eleito com base nesse esquema de apoios não se relaciona com Prefeitos e sim com os comandantes (antigos coronéis) das famílias que ajudaram a elegê-lo ou com comandantes de famílias opositoras, que precisam se manter vivas na política.

E deste modo, os investimentos, a construção de hospitais, escolas e delegacias, a distribuição de equipamentos hospitalares, de segurança e educação, a melhoria de estradas, a extensão de redes de esgoto e abastecimento, entre outras políticas, não são definidas com base na necessidade de cada região e da população local, mas sim com base no interesse e necessidade de determinada família, que quer dar mais visibilidade a um filho (ou esposa, ou mãe ou tio) que está entrando na política, que deseja atender interesses comerciais da própria família, ou daqueles grandes financiadores da campanha; que deseja esconder algum esquema ilegal com a realização de uma obra ou ação do tipo “tapa buraco”.

Deste modo, o Estado vai se afundando econômica e politicamente. Não se tem uma efetiva distribuição de renda, pois apenas aqueles que podem entrar ou participar do esquema político possui os benefícios, formando a casta da elite paraibana. Os demais contaram(ão) com a sorte, a criatividade, os estudos ou os concursos públicos para vencer na vida.

O grande elemento sustentador deste processo está na forma como estas famílias ganham a simpatia e as cabeças dos eleitores. Como são comandantes locais, eles se relacionam diretamente com as pessoas de sua região, oferecem para eles soluções pontuais para problemas urgentes, como um transporte de ambulância, o pagamento de uma conta, um emprego temporário, a permissão de participar de perto das discussões políticas (do poder), o status de fazer parte do círculo de influência da região, uma viagem urgente para a capital, à resolução de uma briga local, a famosa compra de voto entre outros. Assim, as pessoas vão desenvolvendo um sentimento de ligação, de identificação, de empatia com estas pessoas. Além disto, é difícil questioná-los, pois há sempre o boato de que alguém já foi morto, alguém ficou sem emprego e hoje está na penúria para sustentar sua família. A famosa perseguição, que é difícil enfrentar/suportar.

Em épocas passadas isso era mais cruel, pois os coronéis tinham as armas e a força para obrigar as pessoas a votarem em seus indicados, e ainda podiam conferir se eles votaram efetivamente no que foi pedido. Hoje é mais sutil.

Após se estabelecerem na estrutura política oficial eles vão dispor de maiores instrumentos para a realização de favores, só que desta vez, os favores serão pagos com dinheiro do contribuinte, com nosso dinheiro. Dentro da estrutura política podem-se obter concessões de rádios e direcionar verba publicitária, assim se instalam na imprensa verdadeiros soldados defensores destas famílias. Estando no poder (quer queira, quer não) eles vão construir e fazer algo pela cidade, mas sem nenhum planejamento, sem estratégia e sem colocar a população em primeiro lugar. Como já se disse, as políticas são direcionadas para atender interesses e necessidades da própria família que ocupa o poder.

Esse círculo negativo e nefasto tem que acabar. Isso depende de cada eleitor, que cada cidadão perceba o candidato que pode promover rachaduras ou mesmo modificar tal estrutura. Esquema no qual um conjunto pequeno de pessoas se beneficia do dinheiro de todos, do poder de todos, da inércia de todos, da falta de educação de todos.


Golpe de 1964: diziam-se democratas

1 abril, 2010

Nestes dias a presidente da ANJ, Judith Brito, fala ‘Na situação atual, em que os partidos de oposição estão muito fracos, cabe a nós dos jornais exercer o papel dos partidos. Por isso estamos fazendo’.

Neste momento que a grande imprensa brasileira assume-se como partido político, lembramos 46 anos atrás quando esta mesma imprensa apoio e propagou o golpe militar, agindo como partido, muito mais que isso, como golpistas sem legalidade e legitimidade.

Para recordar e aprender vejamos este post do Acerto de Contas:

Uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.”  Assim já dizia um hitlerista de carteirinha, coração e alma. Vejamos como a jornalada brasileira repetiu em coro a mentira de que o golpe militar de 1964 foi uma “revolução democrática”, relembrando algumas manchetes daquela semana em que teve início um período ainda muito pouco esclarecido de 20 anos da nossa recente história.

“Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade … Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”
(Editorial do Jornal do Brasil – Rio de Janeiro – 1º de Abril de 1964)

“Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada”.
(Jornal do Brasil, edição de 01 de abril de 1964.)

“Milhares de pessoas compareceram, ontem, às solenidades que marcaram a posse do marechal Humberto Castelo Branco na Presidência da República …O ato de posse do presidente Castelo Branco revestiu-se do mais alto sentido democrático, tal o apoio que obteve”
(Correio Braziliense – Brasília – 16 de Abril de 1964)

“A paz alcançada. A vitória da causa democrática abre o País a perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil”
(Editorial de O Povo – Fortaleza – 3 de Abril de 1964)

“Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou., o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu.”
(Tribuna da Imprensa – Rio de Janeiro – 2 de Abril de 1964)

“Multidões em júbilo na Praça da Liberdade.
Ovacionados o governador do estado e chefes militares.
O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade. Toda área localizada em frente à sede do governo mineiro foi totalmente tomada por enorme multidão, que ali acorreu para festejar o êxito da campanha deflagrada em Minas (…), formando uma das maiores massas humanas já vistas na cidade”

(O Estado de Minas – Belo Horizonte – 2 de abril de 1964)

E o melhor de todos, o editorial de O Globo de 2 de abril de 1964:

“Ressurge a Democracia”

Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.

Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.

Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.

Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.

As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”

No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.

Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.

Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.

A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.”