Quando o JN não sabe onde se esconder

27 setembro, 2009

O jornalismo no Brasil cada vez mais política, e um político de baixo nível. Está também perdendo a noção de responsabilidade e qualidade. Vale a pena ler o post de Luis Nassif:

Matéria do Jornal Nacional sobre o dossiê falso da Agência Nacional de Petróleo (ANP). A matéria informa que o Ministério Público considerou as acusações falsas e investiga agora se o agente aposentado recebeu dinheiro ou não para divulgar o dossiê.

O valor de um dossiê é diretamente proporcional à repercussão que ele tenha na imprensa. Um dossiê divulgado pelo Giba Um tem valor ínfimo. Pela Veja e pelo Jornal Nacional, valor alto. Se o dossiê foi financiado por alguém e se tionha a expectativa de emplacar em ambos os veículos, o valor certamente foi elevado.

O JN admite, também, que na matéria que deu em maio – repercutindo a Veja – informou que o relatório era da Polícia Federal e não tinha tido sequencia.

Toda essa armação, do lado da Globo, foi de Ali Kamel – que sempre trabalhou estreitamente ligado com o sistema Veja. Na época, foi criticado pelo Nelson Sá, na Folha, que apontou a malícia de colocar a armação de Diogo Mainardi no ar, para poder atingir o Franklin Martins. Kamel rebateu, disse que a imagem ficou “apenas” alguns segundos. “Apenas”… para milhões de telespectadores do Jornal Nacional.

Nenhum jornalista sério do país endossaria as acusações de Mainardi, nenhum. Kamel endossou, sabendo que era alta a possibilidade de ser uma armação. Como endossou a campanha macartista contra livros didáticos, conduzida pela Abril.

São sempre os mesmos personagens e sempre o mesmo jogo de favores recíprocos.

VEJA VÍDEO AQUI>

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Fotógrafa é agredida por agente penitenciário

18 julho, 2009

Já não bastasse o vídeo mostrando as cenas de tortura que agentes penitenciários fizeram com o autor da chacina da família Santos no Rangel, agora eles são acusados de agredir fotógrafa e impedi-la de fazer seu trabalho.

Segundo Fabyana, ela tentou tirar fotografias do acusado, Carlos José dos Santos, quando ele estava saindo da sala onde estava prestando depoimento. Quando pegou o equipamento para fazer as imagens, um dos agentes penitenciários que estava acompanhando Carlos José, a segurou e empurrou a câmera machucando o nariz da repórter fotográfica.

“Ele disse que não podia fazer imagens, me segurou e empurrou a câmera contra meu rosto. Isto revela o despreparo do agente penitenciário. É inadmissível um agente do Estado agredir uma pessoa da imprensa. Fui agredida porque ele não queria que eu tirasse fotos do acusado”, disse a Fabyana.

Carlos José dos Santos, autor da chacina que provocou a morte de cinco pessoas da mesma família, prestou depoimento no presídio PB1 nesta sexta-feira para a Comissão de Sindicância que apura denúncias de tortura praticada por supostos agentes penitenciários contra o acusado.

— Em tempo um

Veja o que afirmou em depoimento o assassino da família Santos:

No início da tarde, ele foi interrogado pela Comissão de Sindicância criada para investigar denúncias de tortura nos presídios paraibanos, mas acabou não reconhecendo as supostas pessoas que o teriam agredido dentro do Roger.

Ele alegou que teria tomado um remédio analgésico para conter uma dor que tinha no pé e este medicamento teria provocado amnésia nele. Segundo o capitão Sérvio Túlio, presidente da Comissão de Sindicância e responsável pelo depoimento, Carlos José disse que não lembrava nem das fisionomias dos suspeitos, nem mesmo que tinha sido agredido.

Sérvio Túlio disse que não tem como dizer se Carlos José está mentido por medo de alguma represália dos agentes penitenciários, mas prometeu seguir nas investigações. “Nem mesmo depois de ver o vídeo (das agressões, que vazou para a internet) ele disse lembrar o que tinha acontecido”, declarou o capitão da Polícia Militar.

—-Em tempo dois:
Veja reviravolta no caso:

Em depoimento ao delegado Deusdedit Leitão, da 9ª Delegacia Distrital em Mangabeira, Antônio Lima dos Santos, tio dos meninos sobreviventes, afirmou que o garoto mais velho, Priciano, de 11 anos, lhe contou em uma conversa informal que foi Edileuza, e não Carlos, quem matou os irmãos dele. A criança, que ficou escondida debaixo da cama durante a chacina, narrou que escutou a esposa de Carlos amolando o facão do lado de fora da casa e, depois que o marido matou primeiramente o pai da família, entrou para executar as crianças.

Outro depoimento ratifica a versão que contada pela criança ao tio. Segundo o delegado, o primeiro policial militar que entrou na casa encontrou a mãe da família, Divanise, agonizando. Ela teria lhe dito que Carlos matou o marido e Edileuza se encarregou dos filhos dela. No entanto, ainda não está claro qual dos dois golpeou Divanise.


Fim do diploma, esvaziamento da organização profissional?

6 julho, 2009

Neste mês de junho o STF definiu não ser necessário o diploma de jornalista para exercer a profissão, de jornalista, ou algum cargo correlato. Abaixo trago alguns trechos que destaco sobre a discussão e voto dos ministros do STF:

Art. 4º, V, do Decreto-lei 972/69: Exigência de Curso de Jornalismo e Não-recepção – 6
Ressaltou-se, ademais, que a impossibilidade do estabelecimento de controles estatais sobre a profissão jornalística também levaria à conclusão de que não poderia o Estado criar uma ordem ou um conselho profissional (autarquia) para a fiscalização desse tipo de profissão e que o exercício do poder de polícia do Estado seria vedado nesse campo em que imperam as liberdades de expressão e de informação. Por outro lado, observou-se que a vedação constitucional a qualquer tipo de controle estatal prévio não desprezaria o elevado potencial da atividade jornalística para gerar riscos de danos ou danos efetivos à ordem, segurança, bem-estar da coletividade e a direitos de terceiros. Asseverou-se que, no Estado Democrático de Direito, a proteção da liberdade de imprensa também levaria em conta a proteção contra a própria imprensa, sendo que a Constituição garantiria as liberdades de expressão e de informação sem permitir, entretanto, violações à honra, à intimidade e à dignidade humana. Entendeu-se ser certo que o exercício abusivo do jornalismo ensejaria graves danos individuais e coletivos, mas que seria mais certo ainda que os danos causados pela atividade jornalística não poderiam ser evitados ou controlados por qualquer tipo de medida estatal de índole preventiva. Dessa forma, o abuso da liberdade de expressão não poderia ser objeto de controle prévio, mas de responsabilização civil e penal sempre a posteriori. Em decorrência disso, não haveria razão para se acreditar que a exigência de diploma de curso superior de jornalismo seria medida adequada e eficaz para impedir o exercício abusivo da profissão. Portanto, caracterizada essa exigência como típica forma de controle prévio das liberdades de expressão e de informação, e verificado o embaraço à plena liberdade jornalística, concluir-se-ia que ela não estaria autorizada constitucionalmente. RE 511961/SP, rel. Min. Gilmar Mendes, 17.6.2009. (RE-511961)

Art. 4º, V, do Decreto-lei 972/69: Exigência de Curso de Jornalismo e Não-recepção – 7
Diante dessas considerações, julgou-se demonstrada a necessidade de proteção dos jornalistas não apenas em face do Estado, mas dos próprios meios de comunicação, ante seu poder quase incomensurável. Os direitos dos jornalistas, especificamente as garantias quanto ao seu estatuto profissional, deveriam ser assegurados em face do Estado, da imprensa e dos próprios jornalistas, sendo que a exigência de diploma comprovante da formatura em um curso de jornalismo não teria qualquer efeito nesse sentido. Reputou-se que, nesse campo de proteção dos direitos e prerrogativas profissionais dos jornalistas, a autoregulação seria a solução mais consentânea com a ordem constitucional e com as liberdades de expressão e de informação, solução esta aventada pela Corte para o campo da imprensa em geral no julgamento da citada ADPF 130/DF. Dessa forma, seriam os próprios meios de comunicação que deveriam estabelecer os mecanismos de controle quanto à contratação, avaliação, desempenho, conduta ética dos profissionais do jornalismo, podendo as empresas de comunicação estipular critérios de contratação, como a especialidade de determinado campo do conhecimento, e, ainda, a própria exigência de curso superior em jornalismo. Esse tipo de orientação regulatória, ao permitir a autopoiesis do sistema de comunicação social, ofereceria uma maior proteção das liberdades de expressão. (…)
RE 511961/SP, rel. Min. Gilmar Mendes, 17.6.2009. (RE-511961)

Diante destes elementos, gostaria de fazer algumas observações:

Há uma separação do aspecto de exercício do trabalho daquele aspecto da discussão e organização dos parâmetros e formas deste exercício. Como conseqüência esses dois aspectos são realizados por grupos e pessoas em posições e demandas distintas; a auto-organização do ofício/profissão atenderá a objetivos intrínsecos da atividade e extrínsecos de cada organização em particular. No fim, os parâmetros de exercício passam a ser definidos pelo corpo gerencial e não pelo corpo dos profissionais em geral.

Mesmo que tenha alguma interferência nesta organização e concepção da prática profissional, o trabalhador estará submetido ou subserviente a autoridade hierárquica, que tem poder de tomar as decisões, definir políticas e diretrizes e proceder à avaliação deste exercício. É provável que algum tipo de participação do profissional neste caso seja instrumental, assim, sendo vista apenas sob o aspecto de contribuir para a eficiência e eficácia da prática.

Mesmo que tais profissionais se organizem em comunidades, grupos ou associações para discussão de sua prática, estas tenderão a ser bem sucedidas se incorporarem os interesses organizacionais às definições da prática. Ressalta aí mais uma importante face da sociedade de organizações. Fora que há um rebaixamento e esvaziamento da profissão no que toca a sua auto-organização.

Tais condições podem provocar um efeito distanciador entre o profissional e sua prática, já que este não se sentirá de algum modo, responsável para responder pela qualidade e forma de execução de seu ofício, tem-se aí as discussões de cunho ético implicadas. De algum modo tudo isso caíra sobre a cabeça do corpo gerencial. Assim, pode-se haver uma desvinculação entre o profissional e sua “ciência”.

Todas estas observações se mostram pertinentes para a análise do atual momento em que vive a profissão de jornalista ao perder a obrigatoriedade de diploma para seu exercício. São observações inspiradas na leitura daquilo que ocorreu com as corporações de ofício e seus profissionais quando da chegada da grande empresa e dos métodos tayloristas.

A restrição que a exigência do diploma trazia foi contraposta por uma total falta de restrição, o que implica teoricamente que qualquer um, com nível médio ou mesmo fundamental, pode exercer a profissão, basta gerar resultados organizacionais, ter algum tipo de influência relacional ou vocação para a coisa, como se diz por aí. A definição das diretrizes profissionais foi separada do profissional que a exerce e aproximada do corpo administrativo que gerencia tal exercício nas organizações. O Estado não pode mais proceder a restrições para esta profissão, deixou isso a cargo dos particulares, que restringem da maneira que lhe convier.


Diploma de Jornalista: E sobrou para Gilmar Mendes

22 junho, 2009

Essa semana o STF aboliu a exigência de er diploma de jornalismo para exercer a profissão de jornalista. Foi um marco para a área, sendo mais um item desta grande discussão que ocorre hoje em torno da mídia.

Neste post vamos ficar de fora do grande tema e reproduzir um fato secundário, mas interessante deste julgamento: as jultificativas de Gilmar Mendes para dar seu voto a favor do fim do dilpoma….

Veja este comentário do Blog de Sakamoto:

não poderia deixar de comentar as justificativas bizarras do presidente do Supremo, Gilmar Mendes, na defesa do fim da obrigatoriedade. Fiquei espantado com o baixo nível da argumentação e me perguntei se ele chegou realmente a estudar o caso ou falou algo de improviso. Pincei apenas um trecho para terem idéia:

“A profissão de jornalista não oferece perigo de dano à coletividade tais como medicina, engenharia, advocacia – nesse sentido por não implicar tais riscos não poderia exigir um diploma para exercer a profissão.”

O jornalismo causa danos mais amplos e profundos do que a queda de uma ponte ou um erro médico. A incompetência, preguiça ou má fé de nós, jornalistas, pode acabar com vidas de um dia para noite. Não fazer uma faculdade não significa exercer a profissão sem critérios e sem se responsabilizar pelas conseqüências, uma vez que elas podem ser imensas.

Afinal de contas, se ele acha que a profissão é tão inofensiva, porque reclama tanto da imprensa?

E esse outro aqui…. é o fim. Com esse tipo de argumento até eu viro ministro:

Ao votar a favor da derrubada da obrigatoriedade do diploma de jornalismo, o presidente do STF, Gilmar Mendes, chegou a comparar a profissão de jornalista com a de um cozinheiro. Uma verdadeira salada feita por ele. Mas já que a discussão desbancou para a cozinha, coloquemos o assunto em pratos limpos. Que tal o jurista julgar a obrigatoriedade do diploma dos advogados? Afinal, seguindo essa linha de pensamento, para ser advogado, assim como cozinheiro, não é necessário um diploma, visto que para cozinhar só se precisa ter o conhecimento dos ingredientes, no caso dos advogados só é necessário o conhecimento das leis, que não precisam necessariamente ser aprendidas na faculdade. Por falar nisso, Gilmar enquanto ministro do STF é um ótimo cozinheiro, pizzaiolo para ser mais preciso; Daniel Dantas, por exemplo, conhece bem o “doce sabor” de sua “pizza”.

—–

Vamos dançar forró….


Jornalismo de hipóteses e teses superficiais

25 abril, 2009

Reprodução de texto do Vi o mundo. Muito simples para desmestificar certas manchetes com intenções escusas….

O Viomundo recebeu cópia de um cheque por e-mail. Mostra que um certo Pafúncio Dantas pagou 1 bilhão de reais a uma pessoa que tem o mesmo nome de um dos controladores da Folha de S. Paulo.

Donde a manchete: Dantas pagou 1 bi à Folha.

Não consegui confirmar a autenticidade do cheque. Mas também não consegui demonstrar que ele é falso, nem produto de uma de minhas múltiplas personalidades.

Assim sendo, eu publico primeiro. Se a Folha chiar, eu desminto mas deixo claro: não consegui comprovar a autenticidade, nem que é falso.

Essa é a lógica empregada pelo jornal ao admitir que publicou uma ficha de Dilma Rousseff que recebeu por e-mail.

Em vez de enfiar o galho dentro, dizer que fez bobagem e pedir desculpas, a Folha diz:

O primeiro erro foi afirmar na Primeira Página que a origem da ficha era o “arquivo [do] Dops”. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada – bem como não pode ser descartada.

Nem original esse “jornalismo” é.

É uma versão do “testando hipóteses”, de Ali Kamel, que foi aplicado com maestria no acidente da TAM em Congonhas. Kamel escreveu, em defesa da imprensa, em O Globo:

Na cobertura da tragédia da TAM, a grande imprensa se  portou como devia. Como não é pitonisa, como não é adivinha, desde o primeiro instante foi, honestamente, testando hipóteses, montando um quebra-cabeça que está longe do fim.

Ou seja, a Folha estava apenas “testando a hipótese” sobre a autenticidade da ficha.

Não se esqueçam que quem deu uma grande contribuição a esse gênero do jornalismo foi o repórter Marcio Aith — ex-Veja, hoje na Folha –, ao reproduzir as contas de integrantes do governo Lula no Exterior.

brasil14_4.jpg

Dizia a legenda:

A LISTA COM AS SUPOSTAS CONTAS SECRETAS
Na lista produzida por Holder e Manzano, para uso de Daniel Dantas, o presidente e outras autoridades aparecem como detentores de dinheiro em paraísos fiscais. VEJA usou de todos os seus meios para comprovar a veracidade dos dados. Não foi possível chegar a nenhuma conclusão – positiva ou negativa.

Como se sabe, mais tarde ficou provado que o “dossiê” de Dantas era falso, o que rendeu um processo ao banqueiro. Ficou tudo por isso mesmo. Aliás, quem foi punido até agora foi o delegado Paulo Lacerda, que dirigia a Polícia Federal no período em que ela desmentiu a picaretagem jornalística de Veja.

Existe, pois, uma matriz neocom para essa picaretagem — dos Civita, dos Frias e do preposto dos Marinho.

PS: O cheque a que me referi é tão verdadeiro quanto a ficha de Dilma ou o “documento” publicado pela Veja.